José Bonifácio

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José Bonifácio é um indivíduo histórico que admiro. Considerado Fundador da Política Externa brasileira e Patriarca da Independência, teve influências iluministas em suas concepções e conseguiu ser um expoente acadêmico brasileiro, destacando-se pelo mundo com seus talentos e admirando muitos governantes da época, o que lhe propiciou um maior sucesso. Assim, foi um personagem único na história brasileira, com propostas inovadoras ao país.

A biografia de José Bonifácio de Andrada e Silva por Jorge Caldeira

A abordagem se inicia com o ideal defendido por José Bonifácio que "a diferença entre País e Nação está no fato que esta última pressupõe algo mais que o governo independente de uma população num território". Esse 'algo mais' seria aquilo que identifica os habitantes de um país entre si.

As identidades existentes no tempo de Bonifácio não eram suficientes para construir uma nação, sendo que ou havia a Identidade Racial -membros da nação se identificando como pertencentes a um grupo étnico distinto dos outros ao seu redor-, ou a Identidade Linguística -quando o país se confunde com o espaço onde se fala uma determinada língua. Como Max Weber diz em Economia y Sociedad, "o fundamento de uma nação não coincide, ao se examinar a realidade, com os elementos de identificação que lhe dão base".

A ideia de nação sustenta-se sobre o fato de que as pessoas reunidas no país têm uma missão a realizar: constitui o sentimento nacional, qual seja a manutenção para o campo da cultura (uma missão cultural específica), os quais são traços peculiares que constituem o 'cimento' em que se baseia a importância da Nação.

E assim, José Bonifácio busca, em suas obras escritas, a espécie de cimento que iria dar sentido à reunião dos brasileiros sob um governo próprio, da missão cultural que deveria marcar a particularidade deste país que surgia na história da humanidade. Nessa parte do texto, refleti: Brasil, unido pela diferença? Somos todos igualmente diferentes? Na mistura e na miscigenação única do brasileiro? E no fim do livro encontro minha resposta: "José Bonifácio defendeu a integração dos negros e índios à sociedade, propondo inclusive a miscigenação das raças como fatos fundamental para a constituição da Nação Brasileira". ;)

Mas, continuando o relato de experiências da vida de Bonifácio no livro, "o governo português, que investira na sua formação (um tour de conhecimento pela Europa, incluindo a revolucionária França), esperava que ele resolvesse uma série de problemas. Com tantos encargos, ele obviamente não podia se dedicar a nenhum deles em profundidade".

Enfrentava o conservadorismo (aferrado aos costumes tradicionais portugueses) para embarcar em projetos de mudança, e isso resultou numa mudança de humor: "o jovial homem da ciência tornou-se um administrador carrancudo, com fama de orgulhoso¹." Os dissabores da vida e intrigas políticas foram contribuintes para tal.

Voltando às análises dos trechos da bibliografia,
Num momento em que a economia precisava ser reconstruída depois da guerra (invasões napoleônicas), a lentidão de respostas tornou-se maior ainda -e também a exasperação. Sem desistir de seus projetos de mudança, os choques se retornaram cada vez mais agudos. Numa anotação da época, deixou escapar: 'a maior parte dos homens que conheço são para mim como habitantes da lua'.
'Apesar dos vários pesares', Bonifácio continuava com muito sucesso em suas posições, e o premiavam com ainda mais encargos... Até certa oportunidade que ele 'se cansa', ou melhor, se estafa disso e deseja assiduamente voltar para o Brasil, com a morte da Rainha. Texto marcante que se refere à isso é: "Elogio à Rainha". Neste, pode-se fazer várias comparações da nova postura ideológica de Bonifácio em relação tempos passados:

O José Bonifácio de 1817 não escreve mais como um estudioso, mas como um homem de Estado". A diferença na concepção defendida para o papel estado-economia entre os textos "Pesca da Baleia" e "Elogio à Rainha" são visíveis. Neste último, percebe-se um iluminismo mais limitado. No lugar de dirigir a sociedade de acordo com as leis naturais, como propunha em 1789, o bom governo seria aquele que a dirigisse com intervenção.
Isso remete a um trecho desse texto "Elogio à Rainha":

Tendo as Leis, feitas pelo governo, tanta importância, mudaria o objetivo do estudioso, que teria um duplo trabalho: de um lado, usar as leis da Razão; do outro, empregar este conhecmento adquirido não como indivíduo buscando livremente a riqueza pessoal que tais conhecimentos permitiriam obter, mas para ajudar que o governo seja fortalecido e haja obediência.
Estou capacitado de que os grandes projetos devem ser concebidos e executados por um só homem, e examinado por muitos; de outro modo, desvairam as opiniões, nascem disputas e rivalidades²; e vem a faltar aquele centro comum de força e unidade que tão necessário é em tudo, e mormente em objetos de suma importância.
E aí, Bonifácio consegue voltar ao Brasil - considerado por ele "local de pouca gente de classes poderosas, que muitas vezes separam seus interesses particulares do da Nação e do Estado" - com o intuito de semear o conhecimento e também mostrar o exemplo de empregar homens livres no seu sítio para mostrar aos locais que tudo poderia ser feito sem escravos e ainda sim ser lucrativo.

Ademais, fez muitos relatos da realidade brasileira para Portugal, "com sua prodigiosa capacidade de escrever, fez relatórios de tudo que observou, mandando para a Corte." 

Como consequência, D. João VI deu-lhe título de Conselheiro por 'inteligência, zelo e distinção". Dessa maneira, começava a acumular poder com suas ideias. "D. Pedro gostou muito daquele velho espirituoso, e princesa Leopoldina, do cientista com quem falava em alemão." Logo foi nomeado como Ministro Brasileiro, ato que há mais de 322 anos um governante português não fazia.

Em 1822, portanto, José Bonifácio já era um político de grande importância em momento crucial, contribuindo para grandes fatos históricos.

  1. Nesse momento, parei a leitura para refletir sobre porque atribuem uma conotação negativa à palavra 'orgulho'. Certo dia um professor de Geografia me 'puxou a orelha' sobre a palavra orgulho, dando um sermão de como era ruim utilizar esse termo e sei lá. Fiquei meio pasma, não compreendi muito bem o que ele disse, e quando fui perguntar depois de novo, ele se enrolou para me responder de forma concreta. Ainda não entendo e não concordo ao certo com essa concepção. Porque orgulho tem conotação negativa? Qual é o grande problema em dizer: "Tenho orgulho disso"? Há quem diga que orgulho pressupõe superioridade moral. Mas e daí? Se você pode ostentar isso... Não necessariamente isso é um critério de distinção, bem pelo contrário, deveria ser aplicado como uma qualidade, sei lá. Para mim, José Bonifácio poderia ser orgulhoso de quem era e de seus atos sim, e com muito prestígio, oras. Enfim...!
  2. Um tom monarquista, quase absolutista, é marcante em passagens como essa, e atualmente, temos que convir que a base da democracia é o 'desvairamento' de opiniões, visto como algo construtivo sim, entretanto, não podemos negar que isso não é um fator que incetiva o nascimento de disputas e rivalidades, pura verdade afinal. :P

3 comentários:

  1. Bonifácio, um verdadeiro Founding Father, mas a república decidiu por diminuí-lo uma pena.

    Obrigado por seu comentário no meu blogs são os leitores a razão de ser dele.

    Abraços,

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  2. Excelente post!!! Escrever bem assim sobre o maior dos brasileiros é digno de admiração e respeito. Parabéns!

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  3. Algúns historiadores norte-americanos, especialistas na História da América Latina, (como o anglo-americano Kenneth Maxwell) comparam o nosso Patriarca com Benjamin Franklin - aliás, comparação que Bonifácio muito apreciava.

    Enfim, foi cientista, filósofo, militar e político, no que estas palavras possam expressar no seu essencial significado.

    Este homem deve ser exemplo para cada cidadão brasileiro. E é mesmo constrangedor saber que, enquanto nos EUA eles fazem questão de mostrar a todo mundo os seus heróis da Independência, aqui no Brasil fazemos questão de esconder os grandes homens deste país, para exaltar meros anões.

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