Paradigmas entre o ideal e a realidade

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[...] Nosotros, inventores de fábulas que creemos en todo, nos sentimos en el derecho de creer que aún no es demasiado tarde para emprender la creación de una utopía contraria. Una nueva y arrasadora utopía de vida, donde nadie pueda decir por los otros ni siquiera la forma de morir, donde el amor sea de verdad seguro y la felicidad posible, y donde las estirpes condenadas a cien años de soledad tengan por fin y para siempre una segunda oportunidad sobre la tierra."

Gabriel García Marquez

O ideal é utópico, mas precisamos fazer o possível para deixar a realidade mais próxima dele, entretanto. Seja em que quesito for.

As questões sociais são muito profundas para serem analisadas de forma superficial e isso dificulta qualquer processo, porque nunca se é justo o suficiente.

Existem muitas frustrações entre a teoria e a prática. Isso me intriga de tal maneira que eu não sei explicar. E sempre me fez pensar de uma maneira peculiar.

[...] Assim como o mundo, o sistema solar, o universo, os elétrons, a gente humano é tanta coisa ao mesmo tempo e fazer juízo sobre o que se quer em cada palavra escrita, dita, pensada parece um desperdício imenso das nossas potencialidades. Aí eu nem sequer sou.

Ando muito desconfiado das representatividades no mundo. Nada é o que deveria ser e as coisas começam a ser de fato o que parecem. As pessoas se projetam indivíduos num plano de possibilidades devolvido pela mídia (essa roubou da ciência e da religião o papel de nos dar imagens de normalidade). São os seres humanos que não vêem mais a fronteira da representação e viram na vida uma versão de si de terceira categoria. Gente que age como se estivesse num filme, que fala como se diante de um público, que pensa como roteirista. A internet é a nova dona do nosso espelho de realidade e também celebra um tipo qualquer. Mas se houve época em que as pessoas faziam tipo, hoje as pessoas viraram o tipo.

Penso olhar isso partindo de alguma coisa que já veio comigo. Acredito na compaixão por semelhança, por uma pessoa parecer mais com outra que com árvore. Isso, por si só, nos agrega, nos distingue. Essa semelhança nos faz não querer ao outro o que a gente não quer na gente. Acho compaixão uma pista da tendência emocional da nossa espécie de ser coletiva. Não acho que seja uma invenção textual ou um legado moralista; acho da nossa natureza. E caminha estranhamente de mãos dadas com a consciência a noção de si como ser, salto biológico da nossa linhagem ainda oculto nas razões. Consciência, fome, compaixão... Desejo também é original.

Eu tenho essa compulsão por descobrir o que me é anterior aos códigos, às palavras, ao redor. Isso que eu descrevo é um sentimento que tenho, quem dera fosse só a história. Tem vezes que acho que é tudo conversa e que é só preguiça de enfrentar a derrota anunciada da auto-invenção. Fuga da possibilidade de se propor como uma possibilidade.

A maçã é a escolha. Eu me pretendo chão da parábola. Não Adão, nem Eva, maçã, árvore... Sou mesmo o chão do qual todos eles brotam. Sinto os pés deles todos, sinto a cobra rastejar o fel, entendo todas as expressões das minhas possibilidades como minhas e pago por isso o preço estranho de não estar propriamente em nenhuma delas.
Acho que o mundo é mágico: célula, galáxia, sonho, palavra.

Busco-me sem cessar, porque sou infinita.

Acredito nos homens. Só de birra.

E não me rendo nunca.

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