Relações Internacionais e o Direito Internacional

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Como uma estudante apaixonada pelas Relações Internacionais e pelo Direito Internacional, vejo a integração de ambas áreas de estudo sendo essencial para a completude do conhecimento acadêmico.

A disciplina das relações internacionais examina as tensões e conflitos entre Estados, suas causas, processos e fatores, cuidando diretamente da análise dos fatos e dos valores. Não prescinde, todavia, do conhecimento das normas convencionais internacionais, tanto para apurar os fatores e interesses subjacentes como para averiguar sua eficácia ou seus efeitos no jogo dos entendimentos internacionais. Dessa forma, é o direito internacional que deve ter primazia na condução das relações internacionais e que deve regular os processos internacionais nos diversos campos, entre os quais aborda as organizações, a segurança, a diplomacia, o espaço marítimo, aéreo e cósmico, das zonas polares, dos direitos humanos e do ambiente.

Essa curiosa"parábola" ilustra isso de maneira bem interessante.

E segue uma análise bastante construtiva sobre o estudo de RI e seu desenvolvimento, de Odete Maria de Oliveira, no livro "Relações Internacionais - Estudos de Introdução" :
O estudo acadêmico de RI começou com a tentativa de se analisar as causas da guerra, e como desenvolver meios de reduzir sua ocorrência no futuro. Desde então a agenda se expandiu para incluir várias questões importantes, de natureza analítica, metodológica e substantiva . E na medida que o mundo se transforma, mudam também as questões relevantes em RI. Pode-se dizer que o desenvolvimento da área na Academia é o produto de pelo menos três influências concêntricas: (1) mudanças e debates dentro da própria área de RI, (2) o impacto de eventos importantes a nível mundial, (3) a influência de idéias novas nas Ciências Sociais. Os principais eventos no século XX (as duas guerras mundiais e a Guerra Fria) influenciaram o estudo de RI tanto quanto suas disputas internas, como os chamados ‘grandes debates’ e os debates interparadigmáticos.Portanto, RI vive hoje uma terceira fase (ou onda, como propõe BOBROW, 1999) de um longo processo. A primeira fase desse processo teve início logo após a I Guerra Mundial. Paralelamente ao interesse acadêmico por questões de guerra e paz, o período se caracterizou também por movimentos de mobilização, nacionais e internacionais, em prol de um mundo pacífico e justo. Com a Grande Depressão Econômica e o surgimento de regimes totalitários na Europa e no Japão, o clima de otimismo e esperança(segundo críticos, de utopia) então existente transforma-se gradativamente, na medida em que o mundo caminhava para um novo conflito. A segunda onda se inicia com o fim da II Guerra Mundial. Mais uma vez o interesse acadêmico se concentra em grandes questões relacionadas com paz e guerra, mas emergem também outros interesses, como a maximização do poder nacional e a segurança; democracia, políticas domésticas, descolonização, ideologia, desenvolvimento. Aprofundam-se as divergências Leste-Oeste, o que leva à formação de alianças (OTAN, Pacto de Varsóvia); a Ásia passa a ter, também, papel importante nas RI. A terceira onda começa com o fim da Guerra Fria. Intensificam-se o processo de globalização da economia e a revolução na tecnologia da informação, ao mesmo tempo em que se acentuam as diferenças entre o mundo desenvolvimento e os demais países, assim como a busca pela identidade nacional, gerando conflitos em várias regiões. Muitos dos temas importantes nessa terceira onda representam continuidade das fases anteriores, em termos teóricos, metodológicos e substantivos, mas há também novos desafios e um renovado dinamismo.

No Brasil, a área de RI passa também por uma nova onda, de expansão, dinamismo e otimismo. É esta, portanto, a oportunidade de ser e pensar o direcionamento a ser dado à produção intelectual da área, que deve se preocupar também com a produção de conhecimento novo, inclusive na área didática, não se limitando simplesmente à utilização e transmissão de conhecimento já disponível, gerado em outros contextos, com características socio-culturais, políticas e econômicas distintas. A expectativa não é, necessariamente, a criação de ‘novos’ modelos, paradigmas, abordagens, mas a utilização crítica, seletiva, de ferramentas teórico-metodológicas já disponíveis. Esse esforço contribuiria também para elevar qualitativamente o padrão de ensino, na medida em que se torne mais viável a interdependência entre ensino, pesquisa e produção científica.

Pela sua tradição e qualificação de seu corpo docente, a UnB tem condições de manter seu pioneirismo, tornando-se núcleo gerador e de irradiação de conhecimento e inovação em RI, sobretudo em áreas que no Brasil ainda não foram estudadas de maneira sistemática e com a necessária profundidade. Para enfrentar esses desafios não se necessitam de grandes investimentos em laboratórios, por exemplo, mas sim de determinação e de uma atitude comprometida com a interdependência entre ensino e pesquisa. Na medida em que tais desafios sejam superados, torna-se mais viável o apoio de agências financiadoras de pesquisa e de aperfeiçoamento didático, tanto do Brasil como do exterior. Vencer esses e outros desafios irá, sem dúvida, contribuir também para a consolidação de uma auto-imagem positiva de RI.