Escritos sobre Literatura: Goethe

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No Comentário à poética de Aristóteles, publicado em 1826, Goethe defende sua posição controversa a respeito de um dos temas mais difíceis e mais comentados da obra aristotélica: o efeito da tragédia. Para Goethe, a grade maioria dos intérpretes de Aristóteles até então errou ao considerar que a catarse do medo e da compaixão se efetua sobre os espectadores. "De maneira alguma!", diz ele, a catarse é uma espécie de "círculo reconciliatório", Aristóteles fala de uma "compensação" (Ausgeleichung) das paixões nos próprios personagens.

A certa altura do seu Comentário à Poética de Aristóteles, Goethe discute a finalidade da arte (em especial a tragédia) refutando a idéia de que a catarse provocada pelo teatro possa suavizar as paixões.
Quem progride no caminho de uma formação íntima verdadeira irá sentir que tragédias e romances trágicos de modo algum sossegam o espírito, mas deixam inquieto o ânimo e isso a que chamamos coração, resultando num estado de vaga indeterminação.

Assim seguem passagens do livro que ressaltam tal afirmação:

Aqui se fundamentam as máximas do grande mestre, de que o herói da tragédia não deve ser apresentado nem como inteiramente culpado, nem inteiramente livre da culpa. No primeiro caso, a catarse seria de caráter puramente material, e uma pessoa má que é assassinada, por exemplo, parecia apenas escapar à justiça mais comum. No segundo caso, ela não é possível, pois a culpa causaria, no destino ou na ação humana, uma injustiça pesada demais.

O próprio Aristóteles afirmou na Política: que a música pode ser usada com objetivos éticos na educação, à medida que os ânimos antes exaltados nas orgias se suavizam novamente por meio de melodias sagradas, e portanto outras paixões poderiam ser equilibradas do mesmo modo. Não negamos que aqui se trata de um caso análogo, só que ele não é idêntico. Os efeitos da música têm caráter material, como Händel mostrou em seu Alexanderfest, e como podemos ouvir em qualquer baile, onde uma valsa tocada após a comportada polonaise leva todos os jovens ao delírio báquico.
Mas a música pode agir tão reduzidamente sobre a moralidade como qualquer arte, sendo sempre um equívoco exigir delas tal função. A filosofia e a religião agem sozinhas. Piedade e obrigação precisam ser despertadas, e as artes só o fazem acidentalmente. O que elas podem e conseguem alcançar, porém, é uma suavização de costumes brutos, mas que logo degenera em amolecimento.

Retornamos ao início e repetimos: Aristóteles fala da construção da tragédia, à medida que o poeta, apresentando-a como objeto, retirando daí algo de valor, pensa produzi-la de forma completa para a visão e a audição.
Assim que o poeta completou sua tarefa, um nó significativamente atado e valorosamente resolvido, o mesmo vai se passar no espírito do espectador. A confusão irá perturbá-lo, a solução esclarecê-lo, mas ele não vai para casa melhorado: se fosse suficientemente atento e asceta, iria admirar-se consigo mesmo, por se achar novamente em sua moradia, tão descuidado quanto obstinado, tão impetuoso quanto fraco, tão amoroso quanto sem amor, do mesmo modo que era antes. Acreditamos com isso ter dito tudo que era preciso a respeito da questão abordada, embora o tema possa ser melhor esclarecido em novas investigações.

Admiro muito a construção literária feita por Goethe sobre as oposições e os sentimentos humanos face a elas.

Imagino que seja o mais nobre de nossos sentimentos é a esperança de permanecer mesmo quando o destino parece nos ter conduzido para uma total inexistência. Esta vida, senhores, é curta demais para nossa alma, como comprova o fato de que todo homem, o menor ou o maior, o mais incapaz como o mais louvado, cansa-se de tudo antes de se cansar de viver. E de que ninguém alcança seu objetivo, perseguido tão ardentemente - pois se alguém é bem sucedido em sua caminha, por longo tempo, acaba por fim, e frequentemente diante da sua meta, indo parar numa cova que deus sabe quem lhe cavou, e não vale mais nada.
Não valer mais nada! Eu! Eu que sou tudo para mim, que só através de mim conheço tudo! Assim grita cada um tem consciência de si, dando grandes passos por essa vida, uma preparação para o caminho interminável à frente. Certamente cada um em sua medida. Se um parte com o trote mais forte, outro vem calçado com a bota de sete léguas e o ultrapassa, e dois passos desse último correspondem ao dia de viagem do primeiro. Seja como for, esse caminhante assíduo continua nosso amigo e companheiro, quando admiramos e honramos os passos gigantes do outro, seguindo...

Existem também outras considerações que gostaria de citar sobre Goethe: A solução que ele expõe para se lidar com o conflito, que é 'querer fazer o dever', bem como as concepções abaixo:

O tempo rende muito quando é bem aproveitado.

A arte é uma bela caixa de raridades, na qual a história do mundo passa diante de nossos olhos, suspensa nos fios invisíveis do tempo.