Amizade aristotélica

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Book of Lost Things
Uma pequena passagem da dissertação de Aristóteles sobre a amizade no Livro IX de "Ética a Nicômanos":

Em relação aos bons amigos, devemos tê-los tantos quantos pudermos, ou há um limite ao número de amigos de uma pessoa, da mesma forma que há um limite para a população de uma cidade? Não se pode fazer uma cidade com dez pessoas, e se houver cem mil pessoas não teremos mais uma simples cidade. Mas o número conveniente não é a unidade, e sim algo compreendido entre certos limites determinados. Em relação aos amigos, igualmente, há um número limitado - talvez o maior número de pessoas com as quais se possa conviver (considera-se que a convivência é a característica por excelência da amizade), mas é óbvio que uma pessoa não pode conviver com muitas outras nem dividir-se entre elas. Além disto, estas pessoas devem ser amigas uma das outras, se elas devem passar seus dias juntas, e é difícil satisfazer esta condição com um grande número de pessoas.

Também se pensa que é difícil que uma pessoa possa participar intimamente das alegrias e tristezas de muitas outras, pois provavelmente acontecerá que alguém tenha ao mesmo tempo de alegra-se com um amigo e de chorar com outro. Presume-se, então, que é bom não procurar ter tantos amigos quanto pudermos, mas tantos quanto bastarem para efeito de convivência, pois parece realmente impossível ser um grande amigo de muitas pessoas.

É por isto que não se pode amar muitas pessoas; o amor é uma espécie de amizade superlativa, e isto só se pode sentir em relação a uma única pessoa; logo, também uma grande amizade somente pode ser sentida em relação a poucas pessoas. Esta asserção parece confirmada na prática, pois não encontramos muitas pessoas que sejam amigas à maneira dos companheiros, e as amizades famosas desta espécie são sempre entre duas pessoas. Considera-se que as pessoas que têm muitos amigos e confraternizam intimamente com todos não são amigas sinceras de qualquer deles (salvo no sentido em que os concidadãos são amigos) e tais pessoas são também chamadas lisonjeadoras. No sentido em que os concidadãos sejam amigos, realmente, é possível ser amigo de muitas pessoas sem ser lisonjeador, e sim uma pessoa autenticamente boa, mas não se pode cultivar com muitas pessoas uma amizade baseada na excelência moral e no caráter de nossos amigos, e devemos dar-nos por felizes se encontrarmos uns poucos amigos desta espécie.

Sábias palavras, Aristóteles... Te entendo.