Brasil x Ideal Republicano, Democrático e Representativo

+ Ver comentários
O texto 'República em crise', apresentado pela Transparência Capixaba, mostra uma perspectiva interessante sobre as "situações inusitadas" da política brasileira:

"A crise, apesar de grave e profunda - quando agentes políticos, dos mais variados órgãos e poderes, são constantemente assolados por denúncias de comportamento ímprobo e corrupto, quando os quadros políticos dirigentes envolvidos em esquemas tão espúrios de arrecadação e distribuição de recursos, com inúmeros outros partidos participando desses esquemas, quando as medidas de punição se perdem no tempo ou até mesmo não ocorrem... - não deve servir para aqueles que buscam desacreditar o sonho republicano e democrático e nos colocar numa posição de pessimismo conformista.

Muitos cidadãos, nessa hora, como afirmou Rui Barbosa, “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.

Existem saídas. Não são fáceis, nem rápidas ou individuais. Demandam planejamento, integração, ação e mobilização coletiva e social.

Uma questão fundamental é a punição. A impunidade tem duplo e péssimo efeito. Por um lado cria a situação para que a “cultura do conformismo” se propague com cada vez mais força e, por outro, estimula o cometimento de novos e novos crimes de corrupção e improbidade administrativa.(...)

O terceiro ponto é a necessidade de integrarmos os órgãos de combate à corrupção. Juntos Receita Federal, Polícia Federal, ministérios públicos e outros podem fazer mais e melhor do que hoje fazem. A interação deve se dar em todos os aspectos cotidianos do trabalho. Desde as operações até o compartilhamento de informações e estratégias. Um quarto aspecto é um trabalho de educação, em especial junto às crianças e jovens, em defesa de princípios cidadãos, éticos e morais.

Parece-nos, ainda, claro que devemos investir cada vez mais num trabalho de prevenção. Impedir a corrupção de crescer e prosperar é economizar milhões de reais aos contribuintes brasileiros. Insistir apenas no processo de repressão – que é, evidentemente, necessário, mas insuficiente – é algo que nos mantêm apenas “enxugando gelo”. A recuperação dos ativos desviados é algo, ainda, muito pequeno em relação aos montantes desviados, até pela dificuldade da legislação internacional.

Tudo isso, no entanto, tem um preço: a mobilização da sociedade. O sistema político, a mim isso é de uma evidência cristalina, por mais que tenha entre seus constituintes pessoas de valor, não tem, como coletivo que é, capacidade para engendrar as mudanças necessárias.

Votar, com essa preocupação, parece um bom caminho, mas não é suficiente. Se a sociedade não sair do seu estado de alienação e de interesses pessoais a solução poderá, claro, vir um dia, mas será mais lenta, penosa e difícil. Criar e multiplicar as organizações e mobilizações populares que busquem, cotidianamente, combater a corrupção, lutar pela transparência pública, pelo efetivo e eficiente controle social e a ampla participação popular é o caminho para os democratas e republicanos.
Como disse, certa vez, o então primeiro-ministro britânico Benjamin Disraeli “o momento exige que os homens de bem tenham a audácia dos canalhas”.

Eric Hobsbawm, brilhante historiador inglês, completa a ideia, ao afirmar, em sua autobiografia, que “mesmo em tempos insatisfatórios. A injustiça social ainda precisa ser denunciada e combatida. O mundo não vai melhorar sozinho”.

Creio que existe uma relação de responsabilidade social para com o ideal republicano, primeiramente pois: "O ponto é que o regime republicano implica que aqueles que estejam em cargos de autoridade sejam ainda mais responsáveis com o que fazem e dizem (...) os políticos no Brasil estão a anos luz de saber o que implica “ser uma república” ou, menos ainda, o que seria agir com responsabilidade, mesmo que nos padrões esperados de um cidadão comum", bem como que essa responsabilidade deve partir do povo, de cada cidadão que precisa ser consciente dos deveres de sua cidadania.

Uma das experiências mais curiosas sobre a consciência de "coisa pública", por exemplo, é na Universidade Federal. Vivencio muito a infeliz falta de consciência das pessoas acerca de considerar como a universidade como "algo de ninguém", ao invés de "algo de todos". E sem essa mínima distinção, tanto se perde...

O mesmo acontece o conceito de governo. Acho surreal como as pessoas veem o governo como algo distante delas, e não como parte dele. Afinal, "O Estado somos nós". E somos nós que devemos, partindo de conhecimento e consciência, nos mobilizarmos para as transformações que precisamos ver na realidade. A política no Brasil não pode ser um grande coletivo e legitimado exemplo de ignorância em ação.

O conceito de República é algo intimamente próximo as virtudes democráticas e é fundamental que cada um dos cidadãos brasileiros, consciente dos seus direitos, possa atuar de modo que a democracia representativa e participativa, consagrada na Constituição Federal, torne-se cada vez mais realidade para toda a sociedade, como é dito aqui.