Alice e o heroísmo

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Não tenho o costume de fazer resenha de filmes, contudo, vou de escrever sobre um aspecto presente em "Alice in Wonderland" que intriga minhas análises.
De maneira geral, o filme de Tim Burton não deixou nada a desejar e fez jus a história original de Alice - confesso que tinha meus receios, mas superou minhas expectativas - foi visualmente muito bonito (e não digo nem pelo 3D, apesar de alguns usos bastante perspicazes como no "Cheshire Cat") e muito interessante no quesito linguístico e filosófico.

Entretanto, gostaria de questionar o ápice do filme em que a Alice se torna a heroína - que por sinal, me distrai no exato instante e perdi, digamos, tais segundos principais. E assim, isso despertou diversas indagações e hipóteses que constroem essa minha análise que será feita para o caso quero refletir e divagar, mas... Imagino que, para quem não gosta de spoilers, é melhor ler essa análise depois.



O filme de Tim Burton começa com uma reflexão bastante pertinente sobre possível e impossível, "the only way to achieve the impossible is to believe it is possible" - e eu acredito que isso consiste em dizer que a cogitação do impossível pode torná-lo possível, ou seja, há um caminho de possibilidade na impossibilidade.

Seguindo essa linha de pensamento, o filme constrói as impossibilidades segundo uma citação do pai de Alice: "I sometimes believe as many as six impossible things before breakfast", como uma maneira de tornar o mundo mais interessante.

A outra reflexão do filme é sobre a identidade de Alice: Quem é ela que cresceu? Como ela lida com seus compromissos, com suas responsabilidades? Como ela responde suas próprias dúvidas? E nesse caminho existencial, ela retorna a Wonderland que "According to the Mad Hatter (Johnny Depp), she’s destined to save Wonderland from the evil Red Queen (Helena Bonham Carter), and rescue the beloved White Queen (Anne Hathaway). But she’ll have to kill the dragon-like Jabberwock first". Desde sua chegada em Wonderland, ela é associada a esse destino e é definida pelos outros, dizendo o que ela é e o que deve fazer.

Passagens interessantes são:

"You are not the same as you were before," he said. "Your were much more... muchier... You've lost your muchness".
"I said you were not hardly alice," he corrected her. "But you're much more her now. In fact, you're Almost Alice".
E um momento crucial no filme para mim é quando ela se define dizendo "I make my path", de forma que ela não se via antes concretizando aquele destino que para salvar o reino, mas precisava matar certo animal. Com pressupostos corretos, considero.

Entretanto, dada as circunstâncias da guerra, ela se sentiu compelida - por mais que sempre ficasse expresso no filme que isso teria que ser uma decisão específica dela - a concretizar o destino. Como esse destino era impossível para ela, Alice decidiu utilizar a tese de seu pai (as 6 coisas impossíveis) para achar a coragem de tornar algo possível.

Sendo assim,

6 Impossible Things Before Battle with Jabberwocky
  1. Potions can make me smaller
  2. Cakes can make me larger
  3. Animals can talk
  4. Cats can disappear
  5. There is a Wonderland
  6. I can defeat the Jabberwocky


E, subitamente (um caminho muito rápido da impossibilidade se tornar possibilidade real), no momento que eu me distraí por alguns instantes, ela matou o Jabberwocky, como um ato de heroísmo em prol de cessar a guerra entre as rainhas e trazer paz ao reino. Fiquei perplexa, é justamente isso que me aflinge: A violência em prol de paz. Para mim, a violência por si só já é condenavel e se torna um ciclo eterno de vingança e crueldade para se parar a própria violência e se atingir a paz. Essa indagação me acompanha desde meus primeiros estudos sobre a Revolução Francesa. Como a violência pode ser justificável? Ou até que ponto? E como por meio de um ato violento alguém se torna herói, ou pode se considerar um? É por meio do medo e temor que as coisas funcionam? (O filme também parafraseou Maquiavel). Não poderia Alice, seguindo aquela linha de raciocínio do 'I make my path', transformar o destino por meio da "diplomacia"? (como ela tinha feito antes com o outro animal?)

E por isso cogito várias outras hipóteses dela ter seguido uma coerência ideológica e não ter matado o animal, até porque não houve uma razão de como ocorreu a reviravolta ideológica e qual seria a real justificação argumentativa dela ter que matar o animal para acabar com a guerra fútil entre as rainhas.

De qualquer maneira, a lição é de que Alice sucumbiu a aceitar o destino - ou a se conformar com ele - e se tornou a heroína do povo de Wonderland. Mas aí reitero uma passagem da resenha de Roger Ebert:
The film is enchanting in its mordant way until, unfortunately, it arrives at its third act (...). Time after time I complain when a film develops an intriguing story and then dissolves it in routine and boring action. We've seen every conceivable battle sequence, every duel, all carnage, countless showdowns and all-too-long fights to the finish.

ps. Isso me remete - na questão do heroísmo - a mais um evento em 3D que queria ter escrito sobre minhas reflexões: A guerra de Avatar, que se encaixa nas mesmas condições acima (sem sequer uma mínima justificativa racional - mesmo sendo que a guerra já é um ato injustificável). Como assim, aquele povo que valorizava tanto a vida e natureza, faz uma guerra de maneira tão violenta que é considerada como ato de heroísmo também? Para mim, desde o momento que os Na'vi se colocaram em guerra, perderam a razão tanto como o povo humano. Esse foi o ponto que mais me deixou decepcionada no filme, de como essa concepção foi passada erroneamente - enquanto poderiam ter feita de qualquer outra maneira muito mais exemplar.