Memórias

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Relembrar é sempre uma tarefa interessante - as lembranças possuem um caráter altamente subjetivo e a memória se insere em um contexto de unicidade temporal.

Gosto de ver como a composição de sentimentos em uma memória transforma uma situação para cada pessoa, ou seja, como uma lembrança compartilhada pode ser individual e singular para cada participante - o que é muito curioso, já que a tendência é pensar que se as pessoas estavam na mesma situação, deveriam lembrar da mesma maneira; e bem pelo contrário, cada uma possui uma versão do ocorrido (sob o viés que melhor lhe agrada, claro ;P)

A partir da leitura de um texto muito pertinente sobre o assunto, "How our brain make memories", vale ressaltar algumas ideias como a repetição de lembranças sendo uma alteração eminente do ocorrido, possuindo, assim, um caráter maleável e de reconsolidação:
when we tend to replay them over and over in our minds and in conversation with others, each repetition having the potential to alter them.
When you retell it, the memory becomes plastic, and whatever is present around you in the environment can interfere with the original content of the memory.

Percebemos, então, que nossas lembranças sempre serão diferentes até para nós mesmos, de acordo com a percepção de vida e os novos sentimentos que podem ser aplicados. O texto citado acima conclui de maneira bastante interessante, onde minhas opiniões também são congruentes ao pensamento a seguir:
If fond memories of an early love weren’t tempered by the knowledge of a disastrous breakup, or if recollections of difficult times weren’t offset by knowledge that things worked out in the end, we might not reap the benefits of these hard-earned life lessons. Perhaps it’s better if we can rewrite our memories every time we recall them. Nader suggests that reconsolidation may be the brain’s mechanism for recasting old memories in the light of everything that has happened since. In other words, it just might be what keeps us from living in the past.

Sendo assim, a memória é um processo cerebral que permite o pleno conhecimento do ontem, do hoje e do amanhã. Em outro texto sobre o tema, afirma-se que
[A] memória sempre está em mutação. Isso implica na relação entre passado, presente e futuro, como também em lembrar e esquecer. É importante dizer que a memória é seletiva. E não é neutra, pois se trata de um instrumento político poderoso, usado de diferentes maneiras para que as pessoas se lembrem ou se esqueçam de determinados fatos.

Relacionado a isso, insere-se minha concepção de memória sendo algo seletivo de boas lembranças (que sempre podem ser relembradas como algo melhor ;) , onde se deve guardar o que é positivo e o que vale a pena para viver bem; enquanto que com os detalhes infelizes da vida, devem servir de aprendizado para o superarmos, até o ponto que não precisem ser lembrados mais. Particularmente, tenho uma experiência peculiar com isso: A maioria dos eventos "não tão bons" que ocorrem comigo costumam apenas ser dissolver, em uma filosofia de "not easy to forget, but hard to remember".