A Ilha

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À título de uma literatura reflexiva sobre o ideal-real e outros assuntos interessantes, indico "A Ilha", de Aldous Huxley.
A Ilha de Pala é a descrição de uma nova sociedade segundo a perspectiva de Aldous Huxley, um paraíso natural no Pacífico onde a Utopia é uma realidade. É contada do ponto de vista do jornalista Will Farnaby, que naufraga na ilha e, com duas motivações diferentes, pede e recebe permissão para permanecer um mês. Sua primeira motivação é uma curiosidade real para entender e verificar a realidade da utopia e, através disso, compreender a si mesmo. A segunda é tentar um acordo entre o governo palanês e uma companhia petrolífera, para cujo dono ele trabalha, interessada em explorar os recursos da ilha. Ao longo da estório, Farnaby, se sente culpado por sua hipocrisia, mas justifica-se com o pensamento de que se ele não o fizer, alguém mais o fará.

A esperança é a essência permanente por todo o livro; Farnaby tipifica o próprio Huxley na busca de um entendimento pessoal, tentando acreditar na possibilidade de que a espécie humana seja capaz de alcançar a maturidade mental e espiritual.

Assim, há a demonstração da união do melhor dos mundos já realizados dentro das várias culturas e os de potencialidades ainda não realizadas:

(i) a medicina conjuga todos os conhecimentos sobre a anatomia, a bioquímica, a psicologia, e o espírito e a sua ligação à fonte de vida, resultando numa resposta completa das causas e efeitos das doenças e dos acidentes, nos seus lados físico e psicológico;

(ii) a sexualidade é vista como "um meio psicofísico de alcançar um fim transcendente", e é ensinada na escola sob a forma do maituna, ou seja, o ioga do amor. Toda a educação é uma exposição bastante concreta de problemas como a ecologia, as relações interpessoais e a gestão das próprias emoções;

(iii) o trabalho faz também parte da educação e é incentivada a variedade de profissões para que toda a gente aprenda "acerca das coisas, das técnicas e das organizações, acerca de todos os tipos de pessoas e da sua maneira de pensar";

(iv) a religião é encarada como uma forma de auto conhecimento, na qual os deuses perdem o carácter omnipotente. "Os deuses são todos forjados pelo Homem e somos nós quem lhes puxa os cordelinhos e lhes confere, com esse acto, o direito de puxarem pelos nossos" - Há, por isso, um sentido de espiritualidade antes ligado à natureza e à força do próprio eu. "Se as preces são ouvidas é porque, neste nosso singularíssimo mundo psicofísico, as ideias, quando nelas concentramos o nosso espírito, possuem uma tendência para a concretização";

(v) a pintura, essencialmente paisagística, não é subordinada a alguns artistas conceituados, mas sim a expressão de todos os que queiram partilhar uma experiência mais elevada que se converte em meditação para os que a contemplam.

Os habitantes desta ilha maravilhosa são constantemente despertados pelos minas, os pássaros que repetem frases como "atenção" e "aqui e neste momento", lembrando a importância de agir no momento presente.

Os problemas que impedem a concentração e a compenetração completa do ser são trabalhados através de uma psicologia bastante particular: os assuntos perturbantes são relatados e repetidos diversas vezes até que o "paciente" consiga perceber a insignificância desse episódio em todo o contexto da sua vida, e todas as pessoas que impliquem sentimentos negativos, são distorcidas num jogo mental até adquirirem um aspecto cômico e serem 'espezinhadas' na "dança de rakshasi".

Este romance é uma antevisão, algo utópico, do que poderia atingir a humanidade, se guiada pelo estado nascente proposto neste trabalho. Daqui surgiu a ideia da sua adaptação, reforçando a ideia de um teatro que estabelecesse a relação do público com a sociedade, servindo como despertador espiritual.

Observa-se a consequente transformação das personagens: Will, muda porque aprende a conhecer-se melhor e a ultrapassar os conflitos com o seu passado; Susila, porque aprende que, apesar de todos os conselhos sábios que aprendem na ilha, o passado nunca se poderá alterar e é sempre difícil lidar com ele.

Will representa a sociedade atual, o progresso e a subsequente desumanização das relações interpessoais; Susila representa a possibilidade de uma cura para essa situação, sabendo, no entanto, que apesar de grande parte do nosso sofrimento ser inflingido por nós próprios e apesar de termos algum controlo sobre as nossas vidas, há circunstâncias sobre as quais não podemos agir, sendo, por isso, fundamental viver no presente, para menos termos de lamentar no futuro.

Um fato curioso é o de o autor ter chamado Will à personagem principal do romance. Will significa desejo, determinação, vontade, energia e entusiasmo - em um sentido lato representa poder de escolha, ou ação ou intenção deliberadas que resultam do exercício desse poder. Não queria Huxley dizer que o futuro apenas depende daquilo que estivermos dispostos a fazer por ele?
;)

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