Sobre Sonhos (II) - Borges

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Sonho parisiense

Esta manhã ainda me maravilha a imagem viva e distante da terrível paisagem jamais contemplada por olhos mortais.

O sonho está repleto de milagres! Por singular capricho, havia desterrado do espetáculo o vegetal irregular, e, pintor orgulhoso do meu gênio, saboreava na tela a embrigadora monotonia do metal, o mármore e a água.

Cheio de fontes e cascatas que caíam sobre o outro fosco ou polido, havia um palácio infinito, babel de arcadas e escadarias. Cortinas de cristal, as pesadas cataratas se suspendiam deslumbrantes das muralhas metálicas.

Colunatas em lugar de árvores rodeavam os tanques adormecidos, onde gigantescas náiades se viam como mulheres.

Entre molhes rosados e verdes, por milhões de léguas, as águas azuis se expandiam até os confins do universo. Havia pedras insólitas, ondas mágicas; havia espelhos deslumbrados pelo que refletiam.

Do firmamento, rios taciturnos e descuidados vestiam o tesouro de suas urnas em abismos de diamantes.

Arquiteto dos meus sortilégios, eu fazia passar como queria, sob um túnel de pedrarias, um oceano domesticado. E tudo, até a cor negra, parecia polido, claro e irisado; e a água engastava sua glória no raio de cristal.

Nenhum astro até os confins do céu, nenhum resto de sol que iluminasse esses prodígios de fogo próprio.

E sobre essas maravilhas móveis (detalhe atroz: tudo para os olhos, nada para os ouvidos!) flutuava um silêncio de eternidade.

Charles Baudelaire, "As flores do mal" (1857)
- apud Jorge Luis Borges, in "Livros do Sonhos"
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