Democracia não é fácil

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Rousseau, um dos grandes idealizadores da Democracia, ressalta as dificuldades de tal governo, por mais que seja o ideal.
Ademais, que de coisas difíceis de reunir não supõe tal governo? Primeiramente, um Estado bastante pequeno, em que seja fácil congregar o povo, e onde cada cidadão possa facilmente conhecer todos os outros; em segundo lugar, uma grande simplicidade de costumes, que antecipe a multidão de negócios e as discussões espinhosas; em seguida, bastante igualdade nas classes e nas riquezas, sem o que a igualdade não poderia subsistir muito tempo nos direitos e na autoridade; enfim, pouco ou nenhum luxo; porque ou o luxo é o efeito das riquezas, ou as torna necessárias, já que corrompe ao mesmo tempo ricos e pobres, uns pela posse, outros pela cobiça, vende a pátria à lassidão e à vaidade, e afasta do Estado todos os cidadãos, submetendo-os uns aos outros, e todos à opinião. Eis por que um célebre autor afirmou que a virtude é o princípio da República, pois todas essas condições não subsistiriam sem a virtude; mas, à falta de haver feito as distinções necessárias, faltou por vezes a este belo talento precisão, e inclusive clareza, pois não viu que, sendo a autoridade soberana em toda parte a mesma, o mesmo princípio deve nortear qualquer Estado bem constituído, mais ou menos, é certo, de acordo com a forma de governo. Acrescentemos que não há governo tão sujeito às guerras civis e às agitações intestinas como o democrático ou popular, pois que não há nenhum outro que tenda tão freqüente e continuamente a mudar de forma, nem que demande mais vigilância e coragem para se manter na sua.
Ironicamente, Rousseau finaliza o capítulo IV - Da Democracia, em "Le Contrat Social", com a frase:
Se houvesse um povo de deuses, ele se governaria democraticamente. Tão perfeito governo não convém aos homens.

Política é algo muito complicado - já dizia Aristóteles, sobre a sublime arte de gerenciar a Pólis. Quão mais complicado é discutir política, para mim - visto que apenas exponho concepções particulares como cidadã. Acredito, contudo, que Democracia é compartilhar - e o espaço democrático implica a igualdade de cada pensamento cidadão, com as devidas liberdades de expressão.

Logo, inserido no nosso contexto do 2º turno, exponho as duas concepções democráticas dos candidatos:
Eu queria me congratular com Marina Silva pela votação expressiva. Ela contribuiu com o jogo democrático do Brasil, afirmou Serra, em São Paulo. Ele elogiou a candidatura de Marina pela capacidade de 'atrair participação dos jovens na vida política*'.
Só o processo democrático seria capaz de operar transformação tão profunda, em espaço de tempo relativamente curto, num país marcado por séculos de injustiça e exclusão. Só a democracia, exercida no respeito à Constituição e ao Estado de Direito, permitirá consolidar e fazer avançar o processo de mudanças que fez do Brasil um país amado por seu povo e respeitado no mundo. Contados os votos, seja quem for o vencedor, será hora de somar forças, na convivência democrática, para fazer do Brasil um país ainda melhor e mais justo, governado para todos, como é hoje, e com oportunidades para todos.
Dilma, Folha de S. Paulo, 03 outubro de 2010.

A Democracia não apenas implementa concretizações, mas as consolida. A Democracia é um conjunto em prol do melhor. Os cidadãos devem prezar por isso, honrar e propagar seus pensamentos, mas com o devido respeito. Atribuo a esse termo um sentido amplo de que política deva ser algo limpo - e não degradante. Exponham-se pontos positivos e contraposições, mas em relevância a respectiva concepção - pois senão, trata-se política de nível baixo, onde a discussão apenas se restringe ao que é pior ou não. Não é essa política que acredito.

Espero que, por mais que não seja fácil, consigamos valorizar uma Democracia profícua - porque isso reflete em nós, ao Brasil que "queremos ter e ser".

*com as devidas ressalvas.