Esperanças cidadãs

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Seguindo a linha de um dos textos mais populares do Pequena Infante,"Um pouco mais sobre Democracia e Cidadania", hoje amplio o tema - por ser um assunto que gosto muito e me traz muitas inspirações. Disserto sob a égide das esperanças cidadãs - porque acredito que um futuro de cidadania plena possa ser concretizado, superando as ditas fugas e distorções políticas.

Cidadania é o primeiro direito - do qual derivam todos os demais: é o direito de ter direitos. A efetividade dos direitos humanos está na concretização da cidadania plena e coletiva em todos os segmentos sociais, observando-se que o sentido histórico no qual se estabeleceu o conceito de cidadania resulta das conquistas sócio-econômicas e políticas de movimentos libertários. A cidadania deve ser compreendida, portanto, como participação política do indivíduo no Estado, abrangendo o gozo de direitos políticos e civis, bem como de direitos econômicos, sociais e culturais. O Estado Democrático de Direito, enquanto comunidade do povo, consiste em uma comunidade de valores ou unidade vinculada ao ideal democrático. O povo somente pode ser representado quando o princípio da representação vincula-se aos valores desta comunidade política ideal.

Entretanto, acerca dos direitos da cidadania: Se não há conhecimento ou compreensão destes, como exercê-la? São inúmeros desafios e o principal é o processo da cidadania ser legítimo, não uma "pouca vergonha" política que, infelizmente, é o que existe hoje. Triste é ver que mal há oposição consistente para continuar o jogo (dialético) político.

Além disso, o espaço público precisa ser mais consistente, não só apenas no Brasil. Estamos distantes da essência cidadã - mas isso não é uma crítica desanimadora e sim construtiva, para termos o parâmetro de chegar lá. Acredito que o momento eleitoral* deveria ser revertido para isso, para um debate público pleno com as inúmeras agendas que precisam ser discutidas, que ultrapassam a mera concepção de de direita ou esquerda para realizar as demandas sociais.

Mas no Brasil, há um caráter especial onde a exclusão - antônimo de cidadania - representa uma perda virtual de uma condição nunca antes atingida e não uma perda real capaz de sensibilizar a sociedade. É necessário superar a concepção de exclusão social no Brasil e introduzir um padrão de sociedade fundada na civilidade ou na ética civilizatória.

Segundo Dalmo Dallari,
A cidadania expressa um conjunto de direitos que dá à pessoa a possibilidade de participar ativamente da vida e do governo de seu povo. Quem não tem cidadania está marginalizado ou excluído da vida social e da tomada de decisões, ficando numa posição de inferioridade dentro do grupo social.
Sem dúvida, o Estado e o governo, enquanto sua forma de administração, devem consolidar e regular tais garantias. Todavia, sua efetivação é decorrência da exigência da sociedade.
Não se avançará na consolidação das garantias sociais enquanto a sociedade civil não caminhar um projeto solidário nesse sentido.
A prosperidade no conceito de cidadania significa transformar a teoria ideal e igualitária em prática. A concretização deste ideal requer um esforço coletivo. Dessa forma, há necessidade de suprir as muitas carências, descasos e desigualdades - além de incorporar o significado antigo de cidadania no âmago social,sendo este guardião e fonte de direitos. Seria proporcionada, portanto, uma qualidade de vida merecida por todas as pessoas da sociedade, sem restrições.

Bem, eu tenho esperanças. E espero nunca desistir delas, sempre acreditar que são possíveis. Mais do que esperança, isso é perseverança: fazer o necessário no presente e crer no futuro.


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A Ilha

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À título de uma literatura reflexiva sobre o ideal-real e outros assuntos interessantes, indico "A Ilha", de Aldous Huxley.
A Ilha de Pala é a descrição de uma nova sociedade segundo a perspectiva de Aldous Huxley, um paraíso natural no Pacífico onde a Utopia é uma realidade. É contada do ponto de vista do jornalista Will Farnaby, que naufraga na ilha e, com duas motivações diferentes, pede e recebe permissão para permanecer um mês. Sua primeira motivação é uma curiosidade real para entender e verificar a realidade da utopia e, através disso, compreender a si mesmo. A segunda é tentar um acordo entre o governo palanês e uma companhia petrolífera, para cujo dono ele trabalha, interessada em explorar os recursos da ilha. Ao longo da estório, Farnaby, se sente culpado por sua hipocrisia, mas justifica-se com o pensamento de que se ele não o fizer, alguém mais o fará.

A esperança é a essência permanente por todo o livro; Farnaby tipifica o próprio Huxley na busca de um entendimento pessoal, tentando acreditar na possibilidade de que a espécie humana seja capaz de alcançar a maturidade mental e espiritual.

Assim, há a demonstração da união do melhor dos mundos já realizados dentro das várias culturas e os de potencialidades ainda não realizadas:

(i) a medicina conjuga todos os conhecimentos sobre a anatomia, a bioquímica, a psicologia, e o espírito e a sua ligação à fonte de vida, resultando numa resposta completa das causas e efeitos das doenças e dos acidentes, nos seus lados físico e psicológico;

(ii) a sexualidade é vista como "um meio psicofísico de alcançar um fim transcendente", e é ensinada na escola sob a forma do maituna, ou seja, o ioga do amor. Toda a educação é uma exposição bastante concreta de problemas como a ecologia, as relações interpessoais e a gestão das próprias emoções;

(iii) o trabalho faz também parte da educação e é incentivada a variedade de profissões para que toda a gente aprenda "acerca das coisas, das técnicas e das organizações, acerca de todos os tipos de pessoas e da sua maneira de pensar";

(iv) a religião é encarada como uma forma de auto conhecimento, na qual os deuses perdem o carácter omnipotente. "Os deuses são todos forjados pelo Homem e somos nós quem lhes puxa os cordelinhos e lhes confere, com esse acto, o direito de puxarem pelos nossos" - Há, por isso, um sentido de espiritualidade antes ligado à natureza e à força do próprio eu. "Se as preces são ouvidas é porque, neste nosso singularíssimo mundo psicofísico, as ideias, quando nelas concentramos o nosso espírito, possuem uma tendência para a concretização";

(v) a pintura, essencialmente paisagística, não é subordinada a alguns artistas conceituados, mas sim a expressão de todos os que queiram partilhar uma experiência mais elevada que se converte em meditação para os que a contemplam.

Os habitantes desta ilha maravilhosa são constantemente despertados pelos minas, os pássaros que repetem frases como "atenção" e "aqui e neste momento", lembrando a importância de agir no momento presente.

Os problemas que impedem a concentração e a compenetração completa do ser são trabalhados através de uma psicologia bastante particular: os assuntos perturbantes são relatados e repetidos diversas vezes até que o "paciente" consiga perceber a insignificância desse episódio em todo o contexto da sua vida, e todas as pessoas que impliquem sentimentos negativos, são distorcidas num jogo mental até adquirirem um aspecto cômico e serem 'espezinhadas' na "dança de rakshasi".

Este romance é uma antevisão, algo utópico, do que poderia atingir a humanidade, se guiada pelo estado nascente proposto neste trabalho. Daqui surgiu a ideia da sua adaptação, reforçando a ideia de um teatro que estabelecesse a relação do público com a sociedade, servindo como despertador espiritual.

Observa-se a consequente transformação das personagens: Will, muda porque aprende a conhecer-se melhor e a ultrapassar os conflitos com o seu passado; Susila, porque aprende que, apesar de todos os conselhos sábios que aprendem na ilha, o passado nunca se poderá alterar e é sempre difícil lidar com ele.

Will representa a sociedade atual, o progresso e a subsequente desumanização das relações interpessoais; Susila representa a possibilidade de uma cura para essa situação, sabendo, no entanto, que apesar de grande parte do nosso sofrimento ser inflingido por nós próprios e apesar de termos algum controlo sobre as nossas vidas, há circunstâncias sobre as quais não podemos agir, sendo, por isso, fundamental viver no presente, para menos termos de lamentar no futuro.

Um fato curioso é o de o autor ter chamado Will à personagem principal do romance. Will significa desejo, determinação, vontade, energia e entusiasmo - em um sentido lato representa poder de escolha, ou ação ou intenção deliberadas que resultam do exercício desse poder. Não queria Huxley dizer que o futuro apenas depende daquilo que estivermos dispostos a fazer por ele?
;)

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Sobre Sonhos (II) - Borges

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Sonho parisiense

Esta manhã ainda me maravilha a imagem viva e distante da terrível paisagem jamais contemplada por olhos mortais.

O sonho está repleto de milagres! Por singular capricho, havia desterrado do espetáculo o vegetal irregular, e, pintor orgulhoso do meu gênio, saboreava na tela a embrigadora monotonia do metal, o mármore e a água.

Cheio de fontes e cascatas que caíam sobre o outro fosco ou polido, havia um palácio infinito, babel de arcadas e escadarias. Cortinas de cristal, as pesadas cataratas se suspendiam deslumbrantes das muralhas metálicas.

Colunatas em lugar de árvores rodeavam os tanques adormecidos, onde gigantescas náiades se viam como mulheres.

Entre molhes rosados e verdes, por milhões de léguas, as águas azuis se expandiam até os confins do universo. Havia pedras insólitas, ondas mágicas; havia espelhos deslumbrados pelo que refletiam.

Do firmamento, rios taciturnos e descuidados vestiam o tesouro de suas urnas em abismos de diamantes.

Arquiteto dos meus sortilégios, eu fazia passar como queria, sob um túnel de pedrarias, um oceano domesticado. E tudo, até a cor negra, parecia polido, claro e irisado; e a água engastava sua glória no raio de cristal.

Nenhum astro até os confins do céu, nenhum resto de sol que iluminasse esses prodígios de fogo próprio.

E sobre essas maravilhas móveis (detalhe atroz: tudo para os olhos, nada para os ouvidos!) flutuava um silêncio de eternidade.

Charles Baudelaire, "As flores do mal" (1857)
- apud Jorge Luis Borges, in "Livros do Sonhos"
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Receios da ordinariedade

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Fico perplexa com o indivíduo ordinário na vida, enquanto esta fornece tantas oportunidades de não ser. Mais perplexa ainda, fico em perceber quantas pessoas da sociedade são assim...
Escutando aleatoriamente as músicas das letras expostas abaixo, reflito na quantidade de situações que existem como as que são descritas a seguir. E receio por isso; não é o que eu procuro para mim, pelo menos.
Peixes são iguais a pássaros
Só que cantam sem ruído que não vai ser ouvido
Voam águias pelas águas
Nadadeiras como asas que deslizam entre nuvens
Nós vivemos como peixes:
Com a voz que em nós calamos,
com essa paz que não achamos...
peixes pássaros pessoas
nos aquários, nas gaiolas
pelas salas e sacadas
afogados no destino
de morrer como decoração das casas
Nós morremos como peixes
O amor que não vivemos
Satisfeitos mais ou menos
Todas iscas que mordemos
Os anzóis atravessados, nossos gritos abafados...
Você tem vertigem
Da imagem que conquistou pra si
Você tem vertigem
Das alturas que pensa em conseguir
Tudo é miragem
E esse é um rito de sonho e de passagem
Mas requer coragem
E mesmo aos trancos temos que prosseguir
Você tem vertigem
Do seu futuro, dos planos que lançou no ar
Leva junto um mundo, medo
Abre os escudos
Pras flechas que possam vir
Mas não há garantias
E as coisas duram
Por um curto tempo dentro de um curto espaço
Tudo vai, mas algo fica
Somos só flores
Capim verde na paisagem.

Miss Babineau’s Ghost

Vivo sonhando

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Vivo sonhando, sonhando
Mil horas sem fim
Tempo que vou perguntando
Se gostas de mim
Tempo de falar de estrelas
De um céu, de um mar assim
Falar de um bem que se tem

Gente que passa sorrindo
Zombando de mim
E eu a falar em estrelas
Mar amor e luar
Pobre de mim
Que só sei te amar...

;) ;*

Um pouco mais sobre o ideal e o real

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A expressão "ideal de polis" remete à discussão que alguns levantam entre o ideal e o real. A imagem de polis que temos em mente é idealizada: todos os cidadãos vivendo em koinonia ("comunhão"), ausência de desigualdades e autonomia política. No entanto, entre o ideal e a realidade havia uma grande distância, até mesmo durante a época clássica, apogeu da polis, pois era muito difícil ser realizada plenamente. À medida que a cidade ia crescendo, era mais frequentemente ameaçada por conflitos sociais e políticos (stasis).

Em face das dificuldades que atormentavam a polis no século IV a.C., três palavras ganharam destaque: dike ("justiça"), eunomia ("ordem") e eireine ("paz"), e assim se inicia a filosofia política de qual seria a melhor maneira de assegurar esses valores à sociedade. Será que haveria uma forma de melhorar as coisas, quando tudo parece ir de mal a pior? Essa é a grande reflexão de Chevallier que será bem tratada por Platão em "O Político".

Sonhos e realidades

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Há pouco tempo atrás comprei uma bela obra de Borges, "Livro dos Sonhos", com inúmeras boas reflexões. Entre elas, inicio o post com a observação de que
... quando se sonha, a alma humana, desligada do corpo, é um tempo o teatro, os atores e a platéia. Podemos acrescentar que é também a autora da fábula que está vendo; isso nos conduz a tese perigosamente atraente de que os sonhos constituem o mais antigo e não menos complexo dos gêneros literários.

E falando sobre a complexidade de sonhos, não poderia deixar de abordar sobre o grande filme recém lançado: Inception.
The movie is all about process, about fighting our way through enveloping sheets of reality and dream, reality within dreams, dreams without reality.
It shows truly lucid dreaming, wherein one has control of the dream world, is a suspension of disbelief balancing act. Lucid dreamers also experience the "dream within a dream" phenomenon.
Interessante, não?

Penso que transcendendo a questão de sonhos ou realidades, o cerne é a indagação de verdades: do que é mais convincente querer acreditar e viver. E por isso acredito que o filme proporciona diretrizes muito claras:
at the end it doesn't matter whether he is dreaming or not.

Mas é claro, questiona quem quiser: A incerteza do espectador diante do final reflete também apenas a dúvida existencial humana do próprio protagonista acerca de sua realidade, entre tantos sonhos. Ainda sim, acredito que ele concretizou a realidade que almejava: o desejo de estar com os filhos - esse era o maior sonho. Me encanta a capacidade do filme conseguir expor, com muita qualidade, toda essas reflexões.

Um outro ponto que me interessou muito refletir é em como o tempo se apresenta relativo nas diversas camadas de sonho comparadas a realidade. E sobre tempo, logo lembro de ritmo: A ritmicidade musical desse filme foi incrível para conseguir passar as sensações de sincronia entre sonhos e sintonia de mentes; não só com o tema rítmico base de Édith Piaf, mas cada pequeno ritmo que era agregado nos níveis de sonho, envolvendo-nos em nas camadas de realidade únicas. E isso não era apenas na música!
Each level of the movie was a different kind of film: The kidnapping is a thriller, the hotel is a heist, and the mountaintop was an action film. Each also had different hues: first Saito meeting was red/yellow, kidnapping=blue, hotel/heist=brown, mountaintop=white; think Matrix reality=brown, in the Matrix=green.
Para completar a maestria de Inception, àqueles que gostam de Comics ;)

Mudanças de vida

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As pessoas devem seguir seus sonhos para se realizarem - e por isso fico tão feliz pela minha querida amiga Eliza, futura grande arquiteta, agora lá na UFOP. Distante de mim, mas... Amizade independe de distância!

Para alcançar uma realização, muitas vezes é necessário coragem. Uma determinação suficientemente forte para transformar a vida e fazer mudanças em prol de realizar-se; ser capaz disso é admirável!

Em face dessa mudança, portanto, almejo a minha amiga as melhores surpresas, experiências construtivas e muitas novidades que irradiem alegrias! Desejo toda boa sorte para essa nova etapa da vida, a vida de universitária! ;D

E para ela sempre se lembrar de mim e das minhas artimanhas, nada mais feliz que fazer artes coloridas aos cadernos de muitos desenhos dela! ;)


Decisões

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Decidir é como refletir nas nuances dos traços de van Gogh, observando a sutileza de cada contorno celeste.
Nada é mais difícil, e por isso mais precioso, do que ser capaz de decidir.

Napoleão Bonaparte

E nessa reflexão, é necessário ponderar:
Prudência é saber distinguir as coisas desejáveis das que convém evitar.

Cicero
A decisão é, na verdade, o que de mais próprio concerne a excelência e é melhor do que as próprias ações no que respeita à avaliação dos carácteres humanos. A decisão parece, pois, ser voluntária. Decidir e agir voluntariamente não é, contudo, a mesma coisa, pois, a ação voluntária é um fenómeno mais abrangente. É por essa razão que ainda que tanto as crianças como os outros seres vivos possam participar na ação voluntária, não podem, contudo, participar na decisão. Também dizemos que as ações voluntárias dão-se subitamente, mas não assim de acordo com uma decisão.

Os que dizem que a decisão é um desejo, ou uma afeção, ou anseio, ou uma certa opinião, não parecem dizê-lo corretamente, porque os animais irracionais não tomam parte nela. Por outro lado, quem não tem autodomínio age cedendo ao desejo, e, desse modo, não age de acordo com uma decisão. Finalmente, quem tem autodomínio age, ao tomar uma decisão, mas não age, ao sentir um desejo.

Um desejo pode opor-se a uma decisão, mas já não poderá opor-se a um outro desejo. O desejo tem em vista o que é agradável e o que é desagradável. A decisão, contudo, não é feita em vista do desagradável nem do agradável.

Aristóteles, em 'Ética a Nicómaco'

Mas, inevitavelmente, toda decisão gera uma angústia, assim como expõe Fernando Pessoa:
Ah, perante esta única realidade, que é o mistério,
Perante esta única realidade terrível — a de haver uma realidade,
Perante este horrível ser que é haver ser,
Perante este abismo de existir um abismo,
Este abismo de a existência de tudo ser um abismo,
Ser um abismo por simplesmente ser,
Por poder ser,
Por haver ser!

Penso que, entre as sutilezas da vida, existem caminhos traçados por nossas escolhas, as quais são brisas que devem nos direcionar a plenitude de um céu, bem como se contempla nos quadros de van Gogh.