Eterno tempo

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Fluidity of Space
O tempo e a eternidade são reflexões fascinantes - muito bem trabalhadas por Borges, no livro A História da Eternidade. O presente post é composto por diversos excertos dele, extremamente pertinentes no que concerne o assunto. Contudo, nutro muito interesse por tais análises desde que descobri os fundamentos do Eterno Retorno onde Nietzsche disserta que:
O tempo, no qual a força operante do universo se desenvolve, é infinito, isto é, esta força é eternamente a mesma e eternamente ativa; até o momento presente, um infinito tem transcorrido, isto é, verificaram-se já todos os possíveis dessa força. Logo também todos os desenvolvimentos momentâneos devem ser repetições; assim, pois, tanto o que dela nasce, como o que ela produz, sucessivamente, para frente para trás. Tudo já foi infinito número de vezes, no conjunto de todas as forças reproduzindo suas evoluções. Ora, deixando isso de lado, é impossível determinar se alguma coisa idêntica tem-se reproduzido. Parece ser que, o conjunto das forças, até nas coisas mínimas produz sempre novas qualidades, de forma que não é possível que existam duas combinações de forças exatamente iguais. Poderia haver em um sistema de forças duas coisas iguais, como por exemplo, duas folhas? Duvido: seria necessário supor que tinham uma origem idêntica e, ao mesmo tempo, teríamos de supor que desde toda a eternidade teria existido algo idêntico, apesar de todas as variações do conjunto e da criação de novas qualidades; hipótese inadmissível.

Mas, partindo dessas questões, encontro uma afirmativa de Borges deveras interessante:
Costumo regressar eternamente ao Eterno Regresso...
No brilhante livro citado acima, Borges enumera as três doutrinas do Eterno Regresso, no qual compreende-se a teoria do Eterno Retorno de Nietzsche. Segundo passagens do mesmo livro,
A mais bem fundamentada e a mais complexa é a de Blanqui. Este, como Demócrito (Cícero: Questões Acadêmicas, livro segundo, 4O), abarrota de mundos fac-similares e mundos dessemelhantes não só o tempo como também o espaço interminável. Seu livro tem o belo título "L'Eternité par les Astres"; é de 1872. Muito anterior é uma lacônica mas suficiente passagem de David Hume; consta nos Dialogues Concerning Natural Religion (1779) que Schopenhauer se propôs traduzir; que eu saiba, ninguém lhe deu destaque até agora. Traduzo-a literalmente: "Não imaginemos a matéria infinita, como fez Epicuro; imaginemo-la finita. Um número finito de partículas não é suscetível de transposições infinitas; numa duração eterna, todas as ordens e colocações possíveis ocorrerão um número infinito de vezes. Este mundo, com todos os seus detalhes, até os mais minúsculos, foi elaborado e destruído, e será elaborado e destruído: infinitamente".
Borges também trabalha com a seguinte proposição:
Chego ao terceiro modo de interpretar as eternas repetições: o menos pavoroso e melodramático, mas também o único imaginável. Quero dizer a concepção de ciclos semelhantes, não idênticos. Impossível formar o catálogo infinito de autoridades: penso nos dias e nas noites de Brahma; nos períodos cujo imóvel relógio é uma pirâmide, desgastada muito lentamente pela asa de um pássaro, que roça nela a cada mil e um anos; nos homens de Hesíodo, que degeneram do ouro ao ferro; no mundo de Heráclito, gerado pelo fogo e que ciclicamente devora o fogo; no mundo de Sêneca e de Crisipo, em sua destruição pelo fogo, em sua renovação pela água; na quarta bucólica de Virgílio e no esplêndido eco de Shelley; no Eclesiastes; nos teósofos; na história decimal que Condorcet idealizou, em Francis Bacon e em Uspenski; em Gerald Heard, em Spengler e em Vico; em Schopenhauer, em Emerson; nos First Principies de Spencer e em Eureka de Poe... Dentre tal profusão de testemunhos basta-me copiar um, de Marco Aurélio: "Ainda que os anos de tua vida sejam três mil ou dez vezes três mil, lembra-te de que ninguém perde outra vida senão a que vive agora, nem vive outra senão a que perde. O prazo mais longo e o mais breve são, portanto, iguais. O presente é de todos; morrer é perder o presente, que é um lapso brevíssimo. Ninguém perde o passado nem o futuro, pois a ninguém podem tirar o que não tem. Lembra-te de que todas as coisas giram e voltam a girar pelas mesmas órbitas e que para o espectador é indiferente vê-las um século ou dois ou infinitamente".

Se lermos com um pouco de seriedade as linhas anteriores (id est, se resolvermos não julgá-las mera exortação ou moralidade), veremos que expõem, ou pressupõem, duas idéias curiosas. A primeira: negar a realidade do passado e do futuro. E enunciada por esta passagem de Schopenhauer: "A forma de aparecimento da vontade é só o presente, não o passado nem o futuro: estes só existem para o conceito e pelo encadeamento da consciência, submetida ao princípio da razão. Ninguém viveu no passado, ninguém viverá no futuro; o presente é a forma de toda vida" (O Mundo como Vontade e Representação, primeiro tomo, 54).
E, sobre o tempo, há muito a dizer:
O tempo, se podemos intuir essa identidade, é uma ilusão: a indiferenciação e a inseparabilidade de um momento de seu aparente ontem e de outro de seu aparente hoje basta para desintegrá-lo.
Suscitam-se, portanto, várias outras reflexões interligadas sob o eixo do Tempo, Universo, Eternidade...
O universo requer a eternidade; pois afirmam que a conservação deste mundo é uma perpétua criação e que os verbos conservar e criar, tão antagônicos aqui, são sinônimos no Céu.
Por fim, quanto as hipóteses sobre o passado, presente e futuro (já sucitadas acima), encerro com um bom pensamento:
Santo Agostinho ignora o problema, mas assinala um fato que parece permitir uma solução: os elementos de passado e de futuro que há em todo presente. Alega um caso específico (= Memória): a rememoração de um poema. "Antes de começar, o poema está em minha antecipação; mal o termino, em minha memória; mas enquanto O declamo está estendendo-se na memória, pelo que já disse; na antecipação, pelo que me falta dizer. O que acontece com a totalidade do poema acontece com cada verso e com cada sílaba. Digo o mesmo da ação mais ampla de que faz parte o poema, e do destino individual, que se compõe de uma série de ações, e da humanidade, que é uma série de destinos individuais." Essa evidência de íntima ligação dos diversos tempos do tempo inclui, não obstante, a sucessão, fato que não condiz com um modelo da eternidade unânime. A meu ver, esse modelo foi a saudade. Penso como nostalgia: O homem enternecido e desterrado que relembra possibilidades felizes e as vê sub specie aeternitatis, totalmente esquecido de que a execução de uma delas exclui ou posterga as outras. Na paixão, a lembrança se inclina ao intemporal. Juntamos as aventuras de um passado numa só imagem; os poentes de diferentes vermelhos que vejo a cada entardecer serão na lembrança um só poente. Passa-se o mesmo com a previsão: as esperanças mais incompatíveis podem conviver sem problema. Digamos com outras palavras: o estilo do desejo é a eternidade. (E provável que na insinuação do eterno – da immediata et lucida fruitio rerum infinitarum – esteja a causa da satisfação especial que buscam as enumerações.)