Música: Expressão humana e transcendental

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O piano é a extensão de mim...

Inspirada no filme "Le Concert" e com saudades do meu piano, decido compartilhar com vocês um belíssimo livro de Daniel Barenboim, A música desperta o tempo. Eis alguns trechos muito interessantes, grifos meus:

Começar um concerto é sempre um privilégio maior que começar um livro; alguns podem até mesmo afirmar que o som tem maior alcance que as palavras. Um livro é repleto de palavras que são usadas constantemente, dia após dia, para explicar, descrever, exigir, argumentar, suplicar, entusiasmar e falar a verdade e a mentira. Nossos pensamentos tomam forma através de palavras, por isso as que assumem a forma escrita acabam tendo de competir com aquelas que povoam nossas mentes. A música, entretanto, tem à sua disposição uma gama muito maior e associações em razão de sua natureza ambivalente, dentro e fora do mundo.

Acredito veementemente que seja impossível falar sobre música. Existem muitas definições que, de fato, apenas descrevem uma reação subjetiva a ela. Para mim, a única delas realmente precisa e objetiva é a de Ferrucio Busoni, o grande pianista e compositor alemão que disse que música é ar sonoro, pois diz tudo e nada ao mesmo tempo. Schopenhauer, por sua vez, viu na música uma ideia de mundo. Dela, assim como da vida, só é realmente possível falar tomando por base nossas próprias reações e percepções.

Uma das maiores dificuldades na definição de música é a expressão a si mesma através do som, mas este sozinho não pode ser considerado música. Descrevendo o som, muito frequentemente utilizamos expressões relacionadas às cores: um som brilhante ou um som escuro; isso, entretanto, é muito subjetivo. (Música quase como uma sinestesia, não?)

O último som não é o final da música. Se a primeira nota está ligada ao silêncio¹ que a precede, então a última deve estar ligada ao silêncio que a segue. Por isso é tão desagradável quando a plateia entusiasmada aplaude antes que o último som tenha desaparecido lentamente, porque há um momento final de expressão, que é precisamente a relação entre o fim do som e o começo do silêncio que vem em seguida. Nesse aspecto, a música é um espelho da vida, pois ambas começam e terminam do nada. Além disso, quando se executa um instrumento, é possível alcançar um estado de paz absoluta, em parte devido ao fato de que se pode controlar, através do som, a relação entre vida e morte, um poder que obviamente não é concedido aos seres humanos. Uma vez que toda nota criada tem uma qualidade humana, há uma transcendência de todas as emoções que essas notas podem ter em seu curto período de existência (sendo um som efêmero); de certa forma, é um contato direto com a eternidade.

Não podemos definir a música como algo que tem apenas conteúdo matemático, poético ou sensual. Trata-se de tudo isso e muito mais. Relaciona-se à condição humana, porque a música é escrita e executada por seres humanos que expressam seus pensamentos íntimos, sentimentos, impressões e observações. Isso se aplica a todas as músicas, independentemente do período em que os seus compositores viveram e das evidentes diferenças de estilo entre eles. Bach e Boulez, por exemplo, que viveram com uma diferença de tempo de trezentos anos, criaram mundo que nós, como executores e ouvintes, tornamos contemporâneos. A condição humana pode ser, obviamente, mais ou menos elevada segundo as escolhas do próprio ser humano; o mesmo pode ser dito acerca da composição.

Fazer música inevitavelmente exige um ponto de vista, não obstinado e puramente subjetivo, mas baseado em respeito total à informação recebida da página impressa, à compreensão das manifestações físicas do som e uma compreensão da interdependência de todos os elementos na música: harmonia, melodia, ritmo, volume e velocidade.

Respeito total à página escrita significa obedecer ao que ela diz - tocar piano quando é essa indicação e não, de forma caprichosa, mudar para forte. Entretanto, quão suave é o piano? Essa simples questão é um exemplo da importância de haver um ponto de vista em relação à música. Tocar piano apenas porque a partitura diz isso pode, talvez, ser um sinal de modéstia, mas representa também um exemplo do pecada da omissão. As três questões permanentes que um músico deve ter em mente são: por quê, como e com que objetivo. Cada intérprete deve encontrar, dentro de si mesmo, a vontade necessária para realizar esse processo

A música é continuamente contrapontística no sentido filosófico da palavra e, mesmo quando é linear, há sempre elementos opostos coexistindo, às vezes até em conflito uns com os outros. A música sempre aceita comentários tanto de uma voz como de outra e suporta acompanhamentos subversivos como uma oposição necessária às vozes principais. Na música, o conflito, a rejeição e o compromisso coexistem continuamente.

A música não é separada do mundo; ela pode nos ajudar a esquecer e, ao mesmo tempo, a compreender nós mesmos. Na música, duas vozes dialogam simultaneamente; cada uma expressa a si mesma de forma completa ao mesmo tempo que ouve a outra. Com isso, pode-se observar a possibilidade de aprender não só sobre a música, mas através dela - um processo que dura uma vida inteira.
  1. Uma forma de preparar a entrada do silêncio consiste em criar antes dele uma enorme tensão, para que sua chegada se dê somente depois de atingido o pico absoluto de intensidade e volume.
  2. A coragem é necessária. Como o inesperado é um ingrediente necessário para a preparação do piano súbito, em relação ao som, coragem é a vontade e a capacidade de desafiar o esperado.