O paradoxo de viver

+ Ver comentários

A vida eventualmente se esvai. Para mim, o paradoxo de viver é um dilema entre o tempo e... a morte - um processo biológico impreterível, desde quando nascemos. Alguns dizem que essa é a única certeza que temos na vida e, por isso mesmo, seria o que nos define. Concordo com essa afirmação na medida que o comportamento das pessoas se transforma quando a morte se torna um evento determinado ou determinável, por mais que sempre se soubesse era um evento certo. Medo de morrer? Penso que talvez seja o peso dos arrependimentos ou até mesmo a saudade pelo o que não se viveu. Gosto de pensar, então, que devemos viver em plenitude.

Contudo, o paradoxo se conforma na aflição de compatibilizar o uso do tempo que temos com o tanto que queremos fazer; um exemplo típico disso é: "quero conhecer o mundo, mas a cada ano que passa sinto que tenho menos tempo para conhecer toda essa imensidão". Penso que, talvez, a solução seja um bom conformismo com o satisfatório: Não é necessário conhecer tudo ou fazer mil e uma coisas, mas sim o suficiente - quem sabe, realizar algo de transcendental. Até porque, o segredo é utilizarmos bem o tempo que temos: De nada adianta ter mais mil anos à toa. Como uma sábia passagem do homem que queria viver para sempre, em Sandman,
I doubt I'm any wiser than I was five hundred years back. I'm older. I've been up, and been down, and been up again. Have I learned ought? I've learned from my mistakes, but I've had more time to commit more mistakes. Listen, I've seen people, and they don't change. Not in the important things.
Sandman, #13
Acredito que temos o tempo necessário para realizar o que é preciso, só cabe a nós de fato colocarmos isso em prática, em cada instante da nossa vida. Até porque, o envelhecimento da vida se torna insustentável em algum momento, seja em qual âmbito for; e o que é viver bem para você? A juventude é muito preciosa e, sem ela, é um "endlessly suffering, trapped in a kind of half life". Sendo assim, a morte se reafirma como um processo natural e necessário. Por mais que seja uma questão melindrosa para a sociedade em geral, deveria ser tratada com normalidade. Pois a morte não é um fim em si: Guardamos um pouco de cada pessoa querida nos nossos corações. A única imortalidade que podemos querer é o transcendente que sobrevive independente do tempo-espaço.

Essas divagações não são porque a Amy Winehouse morreu, mas sim decorrentes de Torchwood: Miracle Day: E quando a morte não é mais um evento certo?
Um fato surpreendente: Nenhuma morte humana foi registrada neste dia ao redor do mundo. O evento parece ser um milagre: pessoas continuam adoecendo, se machucando, envelhecendo e ocupando espaço nos hospitais, mas ninguém mais é capaz de morrer. Como consequência, algumas nações cessam conflitos armados e outras entram de cabeça em guerras, pessoas começam a enlouquecer, seitas são criadas, médicos são adorados como deuses e, por fim, estima-se que a vida na Terra se tornará inviável em pouco mais de 4 meses, devido à superpopulação, que leva à falta de espaço, comida e vagas em hospitais.
And because death usually puts a stop to lethal infections, "the human race has become germ incubators." Soon drug resistant organisms will be everywhere, because we'll keep using antibiotics until they stop working. It really is a version of the nightmares we already face, with overpopulation, lengthening life spans, drug-resistant illnesses, and increasing chronic illnesses.
Portanto, a imortalidade não se torna tão desejável assim, bem pelo contrário. Ademais, concluo com um ponto muito interessante que baseia essa situação de imortalidade sem juventude eterna: A mitologia de Tithonus.