Pico da Bandeira: Uma experiência única

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Pessoas felizes e bem dispostas: Mal sabiam o que as esperavam

O Pico da Bandeira: Literalmente uma experiência única na vida (sim, tão singela e intensa que jamais hei de repetir). Compreendo o valor dessa aventura para três tipos de pessoas: para loucos; para quem gosta de sofrer; para quem quer morrer! Infelizmente, lá no topo do Pico da Bandeira, descobri que eu não sou doida o suficiente para apreciar em plenitude a insanidade dessa jornada... E aí também posso afirmar que o cume é uma presunção: Relativa ou absoluta, dependendo do nível dos três fatores supracitados - mas tem gosto para tudo nesse mundo. Eis, então, o meu relato realista dessa jornada desbravadora.

Desbravando, com muito amor, o fim do mundo

Guerreiras

(i) A motivação:
Não sabíamos o que estávamos fazendo. Simples assim. Os 4 primeiros quilômetros, da tronqueira ao terreirão, até enganam bem: Dá até para viver!

(ii) Um "incentivo":
A chegada no parque foi com a notícia que havia um homem infartando lá no alto. Pensamos: "Nossa, ele deve ter abusado ou estava sem preparo físico algum, né...". Bem, ao longo do caminho averiguei que milagre é NÃO infartar lá. Na verdade, quando estava lá no cume, fiquei até com inveja desse capixaba: Também preferia voltar de helicóptero.

(iii) Descobrindo nosso valor, superações e limitações - A experiência nos define:

A grande definição da viagem: Sou guerreira e... praieira. Guerreira pois jamais acreditaria que pudesse conseguir tanto, à princípio bem disposta, amável e feliz. Praieira porque descobri que mato e morrinho não são para mim, prefiro muito mais uma linda praia tranquila. Essa conclusão advém de um relação custo-benefício é muito clara: Um trekking tão penoso (não se enganem com a omissão coletiva sobre o caminho de penitência até o Pico da Bandeira), perante todos os problemas da altitude e do frio, não compensa (é meio difícil ter paz de interior para apreciar as paisagens em meio tanta dor exterior).

Imensidão de mares de morro

Eu sou capaz!!!

(iv) Me against the world:
Em um primeiro momento, é incrível o empenho de esforços - e em prol de conquistar o mundo, lá no cume do Pico da Bandeira. As forças (sabe-se lá de onde!) e a resistência contra as maiores adversidades são impressionantes.

Agora, olhem a cara da alegria...

(v) Total Survivor - ou você ia ou morria:
As condições árduas de se fazer praticamente 20 km diretos, em uma subida/descida terrível, demonstram as circunstâncias do instinto de sobrevivência: Ou você segue em frente ou desiste de fato, ao frio, solidão e fome no meio do nada. É bem desumano. Reconhece-se, assim, a nossa pequenez. Eu, por exemplo, tive um clássico momento "senta e chora", questionando sua razão de ser e o que estava fazendo lá no fim de mundo - enquanto tenho tantas outras mil coisas para realizar no mundo. Essa vida de trekking sem propósito não é para mim, ponto final. Mas foi uma experiência de determinação e de valorização da nossa vida: Do quanto queremos viver e de quão boa é nossa vida, no conforto do lar. Essa foi a lição que o guia só resolveu me contar quando estávamos lá no alto do Pico da Bandeira!

Empiricamente, aprendi não dá para conquistar o mundo: É o universo te conquista. O cume representa o fim, o exaurimento de todas energias para o universo, ao infinito e além.

O fim, só com amor para sobreviver

(vi) A presunção do cume:
Não foi tão agradável, para mim, estar lá acima das nuvens diante dessas circunstâncias. É bem relativo e depende daqueles 3 fatores citados acima (pois até pode ser uma presunção absoluta àqueles que gostam). Nuvens e mares de morros, no final das contas, são todos iguais. E um pôr-do-sol bonito temos em muitos lugares agradáveis do mundo, onde podem ser bem apreciados em tranquilidade... O ápice da história foi o seguinte detalhe, ponto vii.

Cume, quanta presunção

(vii) A pior sensação do mundo, enfrentando medos:
Lembrei que tenho medo de altura quando estava tendo crise de pânico no alto do cume, e bem, tive que admitir esse detalhe como um limitador da jornada.

Parece que tudo vai cair e desaparecer

Mas só para constar, ainda bem que eu não tive a decepção de ir até a suposta cruz e cristo: O pico da bandeira estava sem bandeira, olha que absurdo!

Pôr-do-sol: Mais agradável na foto

Cores do fim de tarde: Já apreciei mais tranquila dentro de um avião ou até mesmo na beira da praia

(viii) Por fim, um desafio:

Desafio é um termo que as pessoas motivadas gostam de atribuir a esse tipo de aventura. Também pode ser nomeado como insanidade, em meio a tantas periculosidades e falta de condições próprias. Mas, tenho um ponto bastante positivo a levantar: O segundo sentido da frase "O Universo te conquista" significa que, por fim, o que realmente valeu foi a cúpula astronômica. E desta, não pudemos registrar em foto, e é por isso mesmo que é ainda mais preciosa. As estrelas sempre valem a pena, as singelas belezas da natureza também. E sim, os mares de morro também nos proporcionam uma dimensão incrível do mundo.

Podemos concluir, dentre tantas observações, que o Pico da Bandeira realmente foi uma grande experiência de vida e por isso tem o seu valor intrínseco. Sobretudo, foi uma aventura entre companheiros muito bem dispostos: E na necessidade, isso estreita ainda mais os laços.

Inacreditavelmente (e surpreendentemente!) fui, voltei, estou viva (!). Mas não queiram saber das dores...