Utopia

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Utopia, do Latim: Lugar nenhum

Seguem trechos muito interessantes que se relacionam com várias reflexões deste blog (anexo aos links das palavras). Uma paráfrase das passagens de um ótimo livro do meu Professor Júlio Pompeu, "Somos Maquiavélicos: O que Maquiavel nos ensinou sobre a natureza humana".

A utopia é um país ideal, mas que para existir requer também homens ideais, tão difíceis de encontrar hoje quanto no século XVI ou em qualquer outro tempo.

A Utopia de Morus foi uma obra crítica social e política que foi idealizada e transforada em modelo de Estado por dois grupos tão distintos sob vários aspectos: socialistas e cristãos. Cristão e marxistas acreditam na Utopia, porque precisam de uma. O homem e o mundo seriam elementos a serem mudados e toda mudança precisa de um referencial, de uma utopia. Se o homem tal como é não é desejável, se a imagem incomoda, se acreditamos poder mudá-lo, precisamos de algo que nos guie em tal mudança, de uma bússola moral e política, de um ideal. A utopia de marxistas e cristãos não estava propriamente na ilha descrita por Morus, mas no homem necessário para torná-la real.

Parece pouco provável que os homens de ontem sejam tão diferentes dos homens de hoje. A principal limitação geral imposta a qualquer utopia é a própria natureza humana: Não é o conteúdo de determinada utopia que a faz crível ou não, mas nossos desejos e o grau da consciência temos das nossas limitações. Se o homem não fosse um ser desejante e, portanto, inevitavelmente insatisfeito, a política poderia, afinal possuir um sentido única. Poderia existir um sistema, um regime, uma forma de organização social e política, enfim, uma utopia que, de alguma forma, pacificasse todos os homens e lhes permitisse viver com felicidade. Mas não é a política a causa da felicidade ou infelicidade dos homens, mas o contrário, a impossibilidade da felicidade, aliada ao desejo permanente de sê-lo, é que faz a política ser o que é: um sistema dinâmico, uma batalha perpétua de insatisfeitos, uns buscando mais do que têm, outros protegendo-se.

Maquiavel, como vimos, ao afirmar que os fins justificam os meios, estaria chamando o príncipe à sua responsabilidade, fazendo-o perceber que sua onipotência é apenas uma ilusão, que suas ações tem limites perceptíveis.

"De fato, a a natureza criou os homens com a sede de tudo abraçar e a impotência de atinger todas as coisas. Como o desejo de possuir é mais forte do que a faculdade de adquirir, disto resulta um secreto desgosto pelo que possuem, ao qual se junta o descontentamento por si próprios. Esta é a origem dos seus variados destinos. Uns querem possuir mais, outros temem perder o que já ganharam; daí o atrito e a guerra, que por sua vez, provocam a destruição de um império para servir à elevação de outro".

Marx e Engels, no manifesto do partido comunista de 1848, descrevem um mundo em mutação constante. Apresentam a modernidade como uma época na qual as mudanças são possíveis. O mundo em que vivemos é feito por homens e pode ser transformado por eles. Nada mais empolgante para alguém que sonha como uma revolução: O problema é: a troco de quê, uma vez feita a revolução, todos ficariam satisfeitos? Isto requer um homem que não tenha como natureza a eterna insatisfação.

Muitos acusaram os marxistas de serem ingênuos quanto à natureza humana, pois, enquanto o capitalismo procura ser um sistema que leva em conta as ambições humanas, o socialismo prega a hipótese de um homem capaz de viver sem egoísmos e grandes ambições, dividindo riquezas. O curioso é que o capitalismo também foi construído em cima de promessas cuja crença requer tanta ingenuidade quanto a atribuída aos marxistas, afinal, a troco de que um sistema político e econômico baseado no egoísmo poderia gerar uma sociedade igualitária, libertária e fraterna? Ambos os discursos coincidem por serem apelos a ideais, por demonstrarem uma insatisfação para com o presente, por louvarem o futuro e dizerem de si mesmos racionais. São discursos que trazem a marca de sua época: o idealismo racionalista. Não haveria razão para novos desejos, como se desejos fossem saciáveis e precisassem de alguma razão para existir. É como se os desejos fossem apenas uma demanda pelo que é necessário e que acabam quando satisfeita a necessidade. Mas o que Maquiavel nos aponta é um desejar para além do necessário e que faz de nós mesmo e da política algo mutante e que se esforça para mudar tudo a nossa volta. Para Maquiavel, não é só a guerra que caracteriza a política. A condição de guerra gera um imperativo na ação dos homens e, por extensão, na política como um todo: manter-se.

As metas de qualquer Estado são, dessa forma, manter-se e, se possível, se fortalecer. Para atinger estas metas, a igualdade ou equilíbrio entre as forças políticas é fundamental. A igualdade de que nos fala Maquiavel não é apenas o equilíbrio entre as forças sociais, mas a possibilidade de levar a cabo seus desejos. A igualdade política seria o ambiente no qual as ambições seriam refreadas em favor do bem comum, interpretado por Marquiavel como liberdade e prosperidade. A república se caracterizaria, fundamentalmente, pelo império da lei sobre os desejos dos indivíduos, o que manteria as decisões de Estado favoráveis à coletividade não a determinado grupo ou indivíduo. Lei e igualdade seria o seu binômio. Mas como o próprio Maquiavel observou, o respeito às leis não é o mesmo em todos os homens. Dependerá do sentimento de igualdade que exista entre eles. A Constituição afirma que todos são iguais perante a lei. Assim como esta última afirmação chega a ser risível se entendida como descrição da realidade e não como um desejo, a mera afirmação de que somos uma república talvez não represente mais do que um desejo de sê-lo.

Política, uma gestão de desejos.

POMPEU, Júlio. "Somos Maquiavélicos".