Jane Eyre e o feminismo

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Jane Eyre, de Charlotte Brontë, representa a essência da minha concepção de vida e amor, até hoje. É meu livro predileto de todos os tempos, competindo com A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera. Se um dia eu tiver uma filha, não tenho dúvidas que esse é o livro que tenho que ler para ela. ;P

Lembrei disso pela paixão intrínseca que tenho só de olhar as passagens do livro, como expus aqui.



Além da excepcionalidade da obra prima de Charlotte Brontë, a autora inseriu no mundo literário um novo tipo de personagem feminino, o que não mais assume o estereótipo submisso, frívolo e instável, mas o que é forte, que tem necessidades artísticas e intelectuais, que não se contenta com as possibilidades limitadoras impostas a sua vida. Por esse motivo e por certa semelhança da narrativa com a vida da própria escritora, tende-se a ver a obra por um viés feminista ou biográfico.

Mas olhem a crítica feminista:

O que muitos interpretaram como feminismo está mais para uma autoafirmação individual do que como mulher. Jane, apesar de toda a sua força, é suscetível ao poder masculino, que a domina e que faz com que seus sentimentos saiam do controle. Percebemos isto tanto em relação a Rochester como ao seu primo. E mais, ela é capaz de abandonar sua sede de viver, de conhecer o mundo, para viver inteiramente para e com quem ela mais ama na terra (Rochester), para tornar-se bone of his bone and flesh of his flesh - citação bíblica que, diga-se de passagem, dá vazão a interpretações machistas. Assume o papel da mulher, acredita estar preparada para isso, e que nenhuma outra mulher conseguiu estar mais próxima de seu companheiro do que ela, exatamente por haver um entendimento mútuo entre os dois, por Rochester conseguir enxergar a sua alma e não tentar fazer dela apenas um bibelô que deve ser dominado e adornado.

Eis a representação perfeita do que me consterna nessa dita visão “feminista” (extremada): Como assim autoafirmação individual significa algo diferente de “ser mulher”? Como assim Jane Eyre não pode escolher o que bem entende fazer, inclusive ser mulher com o Mr. Rochester? Por que o próprio feminismo tenta fechar uma concepção “vanguardista” do que é ser mulher? Isso é delimitar e restringir algo que jamais poderá ser categorizado: uma mulher, ser misterioso. E o pior do extremismo: É excluir as outras perspectivas e pregar apenas que tal visão é a correta.