Time and Closure

+ Ver comentários

Hoje eu li a seguinte frase de Rubem Alves: "Saudade é a dor que se sente quando se percebe a distância que existe entre o sonho e a realidade. Mais do que isto: é compreender que a felicidade só voltará quando a realidade for transformada pelo sonho, quando o sonho se transformar em realidade". Mas será mesmo que precisamos ficar nessa eterna inquietude? Vamos divagar, então! (Faz tempo que não faço isso aqui no blog! :)

É importante esclarecer que existem três categorias de sonhos, ao meu ver:

(i) O sonho do passado que se foi e não volta mais:

Cada instante é singelo nas nossas vidas - e se ficarmos presos a eles, será um ciclo infinito de nostalgia. Das alegrias que nos consomem, negativamente ou positivamente - que podem nos deixar obcecados a só querer aquilo ou que nos nos motivam incessantemente a viver mais - ao leite derramado que não adianta chorar sobre, mas gostaríamos de mudar e sonhamos com um outro contexto. Antes de prosseguirmos, faço uma pertinente observação: "sonhar com E SE?!" é inadmissível para mim. Isso não é um sonho, é um pesadelo! Por isso, sou adepta à filosofia de que devemos fazer todo o possível para realizarmos a vontade de viver. Mas será que é tão difícil nos conformarmos que "o que vivemos" marcou e passou? Todos os momentos com aquele traço especial (e melancólico) da finitude jamais se repetirão, ao passo que são únicos no espaço e tempo. Essa é uma característica muito peculiar e valorosa, no final das contas! Mas seus reflexos ficam nos sonhos e como é complexo se desprender dessa memória de algo que não é mais. Vale ressaltar, diga-se de passagem, que nossas lembranças são mutáveis e, a cada vez que nos recordarmos novamente de um fato, vamos atribuindo novas interpretações. Isso pode levar, com tempo, a nos lembrarmos apenas de uma doce ilusão - com um significado distinto do que um dia foi.

(ii) O sonho do presente:

A. Se o sonho do presente é a concretização do que se imaginava, temos o seguinte paradoxo "...But the price of getting what you want, is getting what you once wanted." - Neil Gaiman. Não é preciso dizer muito, né? Sonhar com algo é sempre criar expectativas que nunca serão transpostas da mesma maneira (ainda bem, porque é a nossa chance de nos surpreender!).
B. A realidade pode ser bem distinta do sonho do presente - a pior coisa é querer viver uma coisa enquanto se está vivendo outra (que pode ser tão boa ou melhor do que a hipótese que se deseja!) mas ah, o desejo x podemos querer o que já temos?
C. O sonho do presente também pode ser muito claro nos contornos de almejar que algo se realize na atual realidade (o que se distingue de um sonho do futuro, a longo prazo), mas, por diversos fatores, a realidade fica presa nas suas circunstâncias enquanto o sonho está esperando logo ali. A palavra que define esse aspecto é a espera e a necessidade de uma serena paciência. Tempo ao tempo, dizem - mas sempre fico perplexa com isso: "O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem. O tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo como o tempo que o tempo tem!"

(iii) O sonho do futuro: Ah, o sonho futuro! Cada um com cada seu, também não preciso dizer muito; E quando sonhos crescem juntos, isso sim que é a mais bela união!

Bem, o sonho relativo ao que estar por vir é composto por dois ingredientes: a esperança e a expectativa. Não há nada melhor do que isso, né? Mas isso resulta em um outro elemento: Ansiedade. E aí, o tempo não passa...
* Isso sempre me lembra essa música da Madonna que eu tanto gosto: "Time goes by... so slowly - for those who wait".

Voltando à reflexão de Rubem Alves, ao ler aquela passagem instantaneamente lembrei de uma frase pela qual sou apaixonada: "Wait for me somewhere between reality and all we've ever dreamed". A vida é essa eterna busca, não? Adoto esse pensamento como um paradigma para mim. Ao mesmo tempo, não sei se é exatamente um "where our dreams and reality collide" , como na imagem acima. Se levarmos a palavra ao pé da letra, fazer isso possível - conseguir unir realidade e sonho quase que forçosamente - sempre trará um caos. Mas acredito na parte do "maybe one day we'll find the place". O lugar do equilíbrio e da paz interior; da satisfação plena (sim, eu ainda insisto em pensar que isso existe em raros momentos!) com o queremos ser e ter páreo ao que somos e temos. O lugar da dinâmica "mutabilidade do constante" onde a realidade se inspire no sonho para sempre ser melhor. E é nessas horas que lembro que estou realizando os sonhos para a minha realidade! Sonhos que um dia pareciam só ideias meio impossíveis, sonhos que passaram pelo estado do presente e se conformam em um futuro a curto prazo que logo está por vir!

Para concluir esse texto que já está deveras extenso, confesso que não sei exatamente como se solucionam as questões os tipos de sonhos criam. Nesses casos tento aplicar a seguinte frase: "Não é um problema que você resolve. É um paradoxo que você gerencia". Ou simplesmente não pensa. Não tenta entender, só viva o momento:

Renda-se como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece, como eu mergulhei. Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa qualquer entendimento. - Clarice Lispector

Por fim, há mais de um ano atrás havia escrito esse texto e as palavras sempre tomam novas significações ao passar do tempo, né? Não custa repetir então:

Platão possuía uma alegoria para descrever o homem virtuoso, cuja anima era dividida em três partes: a cabeça, representada por um pequeno homem, ou razão. O tórax, representado por um leão, ou a vontade. E o baixo-ventre, representado por uma hidra, ou os desejos. A metáfora com a Hidra é curiosa, pois representa o eterno das cabeças cortadas simbolizando a perpetuidade dos desejos que, uma vez satisfeitos, dão origem a novos desejos. O virtuoso seria o homem que equilibrasse em seu corpo e anima os três animais. (...) Acredito que "há o desejo, que não tem limite, e há o que se alcança, que o tem. A felicidade consiste em fazer coincidir os dois".

ps. Uma das coisas que me fez escrever esse texto (além dos meus sonhos, literais ou figurativos!) é que recentemente tenho escutado bastante essa playlist "It's only a dream, Alice", e aí me lembro que ganhei de aniversário o livro para ler, que possui como subtítulo "através do espelho e o que Alice encontrou por lá". Podem surgir boas reflexões daí! :)