Um protesto com muitos protestos

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O Brasil encontra-se em um contexto peculiar na presente data: compartilha um sentimento difuso de contestação, com uma pluralidade de movimentos originados pelo protesto paulista acerca do valor da passagem do transporte público. Não sei se podemos dizer que a proporção do movimento tornou contornos em solidariedade à repressão do pleito inicial, mas justamente por termos a certeza que não é "apenas por 20 centavos", cada ativista concebe que pode ser sobre tudo e mais um pouco. A única coisa que podemos afirmar, no momento, é a seguinte:

O que não sei:
Este é o tópico decisivo. (...) Ou seja, não sei o que esse movimento, em sua heterogeneidade, está inventando e nos está dizendo, e está dizendo a si mesmo, ao constituir-se.

Desde os dignos clamores por batata frita no RU ao "passe livre", a população encontrou nas ruas (e no facebook, diga-se de passagem) um divã. De pessoas descobrindo que podem se expressar politicamente ou divagar sobre suas inquietudes (não é à toa que eu tenho um blog, afinal ;P), cada um possui uma pauta individual, formando um protesto de muitos protestos. Mas ficam questões a serem desenvolvidas e testadas na prática: é possível conceber uma pauta coletiva defendida por todos? Será que o engajamento de cidadãos (e considere que esse termo possui um sentido bem profundo de consciência política) pode constituir uma real ideia de coletividade? É possível transformar de forma imediata paradigmas arcaicos acerca do nosso sistema repleto coisas mal resolvidas? Será que o povo irá se dar conta que faz parte do Estado e nós que concebemos os parâmetros da nossa realidade? Estaríamos dispostos a nos transformarmos e construirmos uma nova perspectiva política, ou vamos preferir jogar a culpa em determinado dirigente ou partido político? Vamos assumir nossas responsabilidades políticas e clamar não apenas por direitos, mas pelo cumprimento de nossos deveres? Iremos nos restringir às demandas conservadoras da classe média que veem a ditadura legislativa como solução ou saberemos utilizar o nosso poder político? Como cidadãos integrantes do Estado, nos daremos conta do verdadeiro conceito de bem público? Ou seja, quem disse que democracia era para ser fácil?! ;)


É relevante expor, nesse contexto, que somos intrinsecamente "traumatizados":

No Brasil ninguém acredita mais em greve. O sindicato começa, a população não ta nem aí, eles fazem uma passeata no centro da cidade na hora do rush, a população fica ainda com mais raiva e o governo aprova tudo que eles não queriam aprovar.
É possível modificar essa concepção? Apenas com a mobilização inclusiva, coletiva e efetiva, à la modelo francês de greve. Mas até lá, um longo caminho... Uma construção a longo prazo (e não apenas por causa da copa).

É importante notarmos que vivemos um momento de autonomia de informação; a internet e os diversos meios de rede de comunicação social falam por si mesmos, de maneira prática, rápida e inovadora. Nesse sentido, cabe referenciar uma interessante pesquisa que está sendo desenvolvida pela UFES, citada até no New York Times:

Fabio Malini, a scholar who analyzes data patterns in social media at the Federal University of Espírito Santo, said he was impressed by the movement’s refusal to be defined by a single objective and by its extensive use of social media, which has enabled it to evolve fast in response to various sources of social and political tension in Brazil.

É oportuna a escolha de palavras no texto supracitado, podendo demonstrar o caráter genérico e sem foco específico que os protestos assumiram. Mas só a exaltação de "protestar por protestar" já se tornou exponencial, formando um "metaprotesto". Isso dá espaço a uma minoria exacerbada realizar o que bem entende em nome de uma suposta causa, canalizando uma revolta de cunho político em ações que deslegitimizam o movimento. E o pior, ensejam um ciclo de desproporção de medidas, em especial por parte do Estado (aqui consumado no papel da polícia, que deveria possuir a essência de ordem e pacificidade, além de cumprir o dever de proteção aos cidadãos). A lição, ao meu ver, é que a violência e o desrespeito são injustificáveis, não importa de qual parte (e não deveriam existir partes, para começo de história, e sim uma união de propósitos cidadãos). Existem várias opções em detrimento da rebeldia por si só, em especial no fomento aos canais de diálogo. Ocorre que o extremismo gera intransigência e se torna um monólogo de "8 ou 80". Eis o paradoxo desse escopo.

Em todo caso, espero que saibamos aproveitar o momento com discernimento - a pauta de transformação é grande e se faz necessária uma organização somada a definição clara e bem definida de prioridades (para não recairmos no meme "o que queremos?! e quando queremos?!"). Que possamos valorizar os canais de diálogo e que esse importante contexto seja um primeiro passo para efetivarmos devidamente o engajamento da cidadania brasileira, culminando na eleição mais consciente de representantes políticos.

Estaríamos diante de uma reivenção da política democrática? Talvez a melhor forma de escutar seja tentar unir-se ao coro, na rua. Para (re)aprender a falar.

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