Aspirações

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Pode não fazer sentido, mas um dos filmes que mais me marcou foi Cloud Atlas e agora, ao acaso (referência a um ator qualquer no IMDb) encontrei um filme que é ao mesmo tempo diferente e parecido de muitas maneiras, Mr. Nobody. Entre "impossible choices" e várias realidades alternativas (acredito que este é o filme com maior número de tripartições de histórias e "parenteses" no meio do caminho), vemos que só vivendo - e escolhendo - para descobrir as possibilidades e as limitações de cada universo paralelo. Uma boa sinopse do filme é a seguinte:

You are introduced to many ideas, and many possibilities, which in themselves are a small selection out of all the possibilities that life may give. The possibilities are the ones given by a 9 year old child, full of ideas, full of freedom, completely and entirely boundless. This creates an enticingly magical combination of possibilities. Boundless and so free in every concept.

This is a journey in our character's imaginative mind, seeing his future being dependant on this one immediate decision, leading to future decisions and potential circumstances that may arise in his future based on his first decision. But the movie also states: If you don't choose, then you don't limit yourself to that one decision therefore the possibilities are endless. The movie encompasses our lives, the life of anyone, and how that life is lead. The circumstances in which you live and how you deal with certain events is represented via our character's perception of the future and circumstances.

A reflexão principal do filme é que "Before, he was unable to make a choice... 'cause he didn't know what would happen. Now that he knows what will happen, he is unable to make a choice". É algo que todos nós conhecemos um pouco de alguma maneira, não? E por isso acredito que construir o nosso presente é a perspectiva mais tangível de aspirar por um futuro - que é melhor não sabermos por enquanto mesmo e esperar que ele nos surpreenda. A vida é um tabuleiro de xadrez: varia de acordo com qual peça que você é no contexto, suas ações impactam aos outros e suas próprias atitudes sofrem reflexos do seu meio e circunstâncias (mas descarto uma perspectiva determinista) e você pode prever inúmeras estratégias lógicas (astutas ou fadadas ao insucesso), mas vai que alguém mexe no tabuleiro! E como xadrez demora!!! (esse é o problema do jogo para pessoas ansiosas!). O filme faz uma referência bem legal ao xadrez e é por isso que resolvi fazer essa pequena comparação: "In chess, there's a move called Zugzwang, when the only viable move is not to move". Na minha linguagem de quem jogava xadrez com 7 anos de idade, essa palavra difícil em alemão se chama "porquinho". Não me perguntem o porquê de porquinho, um dentre tantos vocábulos peculiares na minha infância (se eu pudesse chutar, acho que era porque o porquinho ficava preso, sem opção). Mas existem momentos e momentos: de aceitar e nos contentarmos (essa é a palavra que descreve exatamente a posição e ao mesmo tempo sempre fico em um dilema com essa palavra) com as implicações das nossas jogadas ou em resolvermos mudar o jogo (que frase mais clichê!). Geralmente, esses instantes são sempre encruzilhadas e muitas vezes preferimos não escolher (perigoso: indecisão a tal ponto que não escolhemos e a possibilidade de mudança se esvai). No filme, há uma passagem muito interessante que "responde" essa indagação:

- You can't have been in one place and another at the same time.
- You mean to say we have to make choices?
- Of all those lives, which one... Which one is the right one?
- Each of these lives is the right one.
Every path is the right path.
"Everything could have been
anything else...
and it would have just
as much meaning".

Porque no final das contas, é isso: não existe "E se", temos que tentar e fazer dar certo. Caso contrário, "In live you get one take. If it's bad, you just deal with it". É simples assim. Quando eu digo "não existe E se" é pela razão de que precisamos fazer de tudo em prol de concretizarmos nossas aspirações ao invés de ficarmos em um looping de "mas se der errado, e se eu fizesse diferente, e se fosse de outra maneira". Não podemos mesurar quão diferente seríamos se alguns detalhes do nosso caminho fossem mudados, contudo, acredito que tudo tem seu tempo e, se é para ser, será - ainda que por caminhos diferentes, e aí entra um pouco da filosofia do eterno retorno, que tanto me fascina. E tudo aquilo mais que poderíamos e deixamos de ser? O que não foi, talvez melhor assim (esse lado eu puxei da minha mãe, que é supersticiosa com isso e sempre pensa que algo deixou de ser porque poderia ser pior). Posso estar errada e admito que é uma visão conformista da realidade, mas como é difícil viver em instabilidade, inquietude e insatisfação. Mas temos que viver - e assumir riscos. Penso que quando essa sensação de "E se" bate na gente (não sei se isso já ocorreu com você, mas já passei por isso umas duas ou três vezes na vida) não tem o que tire da nossa cabeça que precisamos correr atrás e fazer o "E se" acontecer - para ao menos tirarmos aquilo da cabeça!!! Por isso, repito, não deixo o "E se" existir, porque ou não é uma opção ou precisa acontecer. Fico refletindo se isso não é um tipo de determinismo pré-concebido, mas o relativismo também mata. Para mim, é assim que o mundo se conforma. Até na linguagem (ou pode ser a forma que vejo o mundo que se traduz na maneira que me expresso), pois não sei se vocês já perceberam, mas escrevo assim (haha - frase afirmativa 1 + vírgula + mas + enfim). É a vida!!! ;)

Sobre "just as much meaning": a verdade é que nós, seres humanos (ou pelo menos a maior parte da população), gostamos de dar sentido à vida, seja como for. Por meio de muitos placebos, eufemismos, crenças ou filosofias, sempre queremos atribuir razões para as coisas - isso é ínsito a nossa natureza e não sei se temos como negar esse fato, ainda que não haja sentido algum no final das contas. Então, na maioria das vezes, faremos a nossa realidade ter sentido, independente de qual configuração do nosso caminho. E viver uma vida niilista também é muito difícil. Em geral, a gente gosta do "fetiche de entendimento".

Dizem que The Tree of Life fala sobre a mesma coisa, só que de tanta abstração não consegui retirar nenhuma reflexão desse filme!!! Quem sabe daqui uns anos eu possa ver mais sentido (isso acontece - ou o filme é realmente sem noção). A maioria dos filmes de Terrence Malick são meio blur para mim (inclusive estou para escrever sobre um outro dele aqui!!!) e me deixam de alguma maneira perplexa, talvez por eu não ter capacidade suficiente para assimilar o que ele possa estar tentando passar.

Essa divagação toda, por ocasião inesperada do filme, talvez seja justamente porque estou em um momento que eu jamais tenha tantas possibilidades e perspectivas que podem ou não se realizar tendo impacto nas minhas definições de "futuro", na vida acadêmica, profissional e pessoal, consequentemente. Pensando desse jeito (e foi um professor que mostrou exatamente isso para rebater o meu mimimi "mas como a vida é complexa e complicada, tudo tão difícil, não sei o que vai ser pela frente, são muitas opções mas não sei se vai dar certo"), é até bastante interessante e singelo esse contexto. É como aquele instante que estamos planejando a viagem ideal, uma parte única do processo - sendo que viajar e viver, claro, é a melhor realização (ainda que com altos e baixos, porque nada é perfeito nem poderia ser!).


Isso me faz pensar no pertinente título de uma reportagem que vi, The Happiest People Pursue the Most Difficult Problems, com um grande fundo de verdade. Os caminhos mais difíceis geralmente são os mais recompensadores e as nossas complicações fazem parte para dar graça (digo isso para me consolar sempre arrumando mais e mais coisas complexas para fazer :P). E "you better make it happen" é a minha filosofia de vida. As aspirações não caem do céu e não teriam propósito se fossem fáceis assim!

Recentemente, assisti um documentário sensacional chamado First position e estou apaixonada por esse jovem dançarino, vejam:

É uma vida de sofrimento, persistência e esforço sem fim, mas também de muita realização. Dançar, tocar e outras experiências assim apresentam um potencial de realização que vai além das palavras, não há como explicar. Realiza-se no ato!

ps. que saudade estava de escrever espontaneamente no blog!!! Divagações fluídas repletas de parenteses! Esse texto, querendo ou não (não foi de propósito!), é uma continuidade deste aqui: Time and Closure.