Her - a Spike Jonze Love Story

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Her, um filme que verdadeiramente mereceu a estatueta do Oscar 2014 por melhor roteiro original. Um filme sobre relacionamentos - ou seja, sobre distintos universos que tentam se "sincronizar". Love story? Sem dúvidas. Final feliz? Depende da perspectiva. Nem todas as histórias de amor foram feitas para darem certo - e temos que aceitar os limites disso, ainda que as pessoas se amem.

I've never loved anyone the way I loved you.
Samantha: Me too. Now we know how.

Tenho plena certeza que essa foi a frase mais linda de todo o filme. Love stories (ainda mais aquelas de amores impossíveis) são sempre únicas e possuem um aspecto singelo: do momento que você se apaixona por um universo inteiramente diferente, você jamais poderá amá-lo da mesma maneira, utilizando os moldes anteriores. Logo, essa primeira frase é significativa, mas óbvia: Cada amor é peculiar. Acontece que muitas vezes não nos damos conta disso - achamos que podemos sobrepor a personalidade do outro com as nossas próprias expectativas ou que iremos encontrar amores substitutos ou compensatórios. O que realmente importa nesse último diálogo com a Samantha - e concede sentido ao filme todo, como uma grande coesão - é justamente o "now we know how", demonstrando como os dois ultrapassaram medos, traumas, dúvidas e inquietudes; encontrando, assim, novos paradigmas de amor que não imaginavam. O processo de se permitir sentir isso é complexo e, por vezes, complicado: o filme demonstra exatamente isso. O curioso que a complicação no filme não é nem o conceito amor/sistema operacional e sim a inteiração sensível de amar alguém.


I am yours
and I am not yours
The heart is not like a box that gets filled up; it expands in size the more you love. I'm different from you. This doesn't make me love you any less. It actually makes me love even more.

Segundo aspecto interessante do filme: o amor é pluridimensional. Não é plano, não é mesquinho, não é possessivo, não é uma relação entre dois amores unilaterais e sim de algo maior. Tão grande que abrange o âmbito do poliamor, amando de forma singela cada amor peculiar e crescendo com isso. É claro que isso não é tão simples quanto podemos expressar em palavras (e sinceramente nem sei se isso funciona, se de fato somos "preparados" para conceber e lidar com o amor assim, ex1. mulheres possuem um gene ciumento; ex2. você mal consegue se dedicar a um relacionamento, vai conseguir se dedicar genuinamente para dois ou mais?). Mas o filme propõe uma reflexão pertinente. Vale também a crítica sobre a polisingularidade.

Samantha: The past is just a story we tell ourselves.

O terceiro aspecto que gostaria de abordar é de como o passado nos marca - mas é justamente a construção (e reconstrução) de interpretações de fatos que já se foram. Saber se libertar disso é um grande desafio; e se pudéssemos reviver o passado, jamais seguiríamos em frente. Ficaríamos presos em loopings eternos com nossas mentes, tentando mudar erros (e criando novos) ou tentando melhorar pequenos detalhes (nunca se sabe o nível de preciosismo de uma pessoa com suas próprias memórias). Em love stories fadadas ao insucesso, então... a decepção parece ser tão grande - e a forte dedicação ao relacionamento anterior, como o filme mostra - que pensamos que jamais poderemos amar novamente. De fato, parte dessa frase está correta: acredito que jamais poderemos amar - igual - novamente. E tudo que é único não volta: simplesmente temos que aprender a viver com isso; e almejar por novos momentos únicos, não? O filme constrói essa transição, que é tão bem feita, a ponto de poder dar um "closure" a história anterior. Toda conclusão se faz necessária na vida:

Dear Catherine, I've been sitting here thinking about all the things I wanted to apologize to you for. All the pain we caused each other. Everything I put on you. Everything I needed you to be or needed you to say. I'm sorry for that. I'll always love you 'cause we grew up together and you helped make me who I am. I just wanted you to know there will be a piece of you in me always, and I'm grateful for that. Whatever someone you become, and wherever you are in the world, I'm sending you love. You're my friend to the end. Love, Theodore.

Nessa parte, eu chorei. Por tão verdadeira que é.

Nós apenas imaginamos a Samantha - claro, na sedutora voz da Johanson - e vemos como ela se desenvolve de um mecanismo stalker (e prestativo, não deixemos de mencionar isso: quem não quer um OS para corrigir artigos e sistematizar informações?!?! Onde um google particular e evoluído?!) para uma mulher pensante ( = tenham medo dos milhares de pensamentos que passam na cabeça de uma mulher processados em alta velocidade) até um ser transcendente ao código 011010001010, que se autocompreende como elemento pós matéria no universo. Impressionante, não? Uma escapatória ao desequilíbrio dessa evolução seria se o software se desligasse e só se desenvolvesse enquanto estivesse conectado com a pessoa, mas isso seria o ápice da possessividade + egoísmo, não? Não teria graça - e é por isso que os universos em um relacionamento precisam se desenvolver por si só, descobrindo novas experiências e vivendo de forma independente. Nem por isso exclui a complementariedade que cada um traz ao outro; e como os OS serviram perfeitamente como um elemento terapêutico a todos: a expressividade da linguagem, a troca de pensamentos e a partilha de emoções é a conexão mais real que podemos criar. Os OS permitiam isso e re-equilibravam as pessoas em suas vidas, por mais que cada um andasse na rua falando sozinho com seus OS agora (não está muito distante do mundo fictício de selfies e a importância do "celular" em detrimento do contato pessoal). Mas só eu acho irônico o fato dele "comprar" um software que a princípio funciona tal qual como ele as cartas que ele escreve conforme o que os outros gostariam de ler?

Samantha: You know, I can feel the fear that you carry around and I wish there was... something I could do to help you let go of it because if you could, I don't think you'd feel so alone anymore.
Theodore: You're beautiful.
Samantha: Thank you Theodore.

A parte triste, inevitavelmente, é o formato de relacionamento à distância, com a dor imensurável do "gostaria de estar aí e te abraçar". Mas de alguma maneira, as duas pessoas não precisam se sentir sozinhas.

Tudo em seu tempo - e o filme mostra como os instantes são preciosos! Reaprender a valorizar tudo que está ao nosso redor; apreciar as menores e subestimadas coisas; "reconectar".


O filme mostra a perda. Mas também mostra o encontro; a completude; a solitude; a liberdade - culminando no que há de mais lindo: o amor livre.