Cidades grandes

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Cidades grandes me deixam "sem ar". Sem saber para onde olhar, é sempre tanta coisa e tanta gente ao seu redor. Uma novidade a cada canto. Adoro voltar para Vitória: sinto amplitude e paz na organização. É um pouco do que sinto quando vou para Brasília também. Até hoje só Buenos Aires e Belo Horizonte que não me fizeram bem, mas como quero conhecer o resto da Argentina e de Minas Gerais!

Buenos Aires cresce
descontrolada e imperfeita.

É uma cidade superpovoada
num país deserto.

Uma cidade onde se erguem
milhares e milhares de prédios...
sem nenhum critério.

Ao lado de um muito alto,
tem um muito baixo.
Ao lado de um racionalista,
tem um irracional.

Ao lado de um em estilo francês,
tem um sem estilo.
Provavelmente essas irregularidades
nos refletem perfeitamente.

Irregularidades estéticas e éticas.
Esses prédios,
que se sucedem sem lógica...
demonstram total falta
de planejamento.

Exatamente assim é a nossa vida...
que construímos sem saber
como queremos que fique.

Vivemos como quem está
de passagem por Buenos Aires.
Somos criadores
da cultura do inquilino.

Prédios menores para dar lugar
a outros prédios, ainda menores.

Os apartamentos se medem
por cômodos...
vão daqueles excepcionais,
com sacada...
sala de recreação, quarto
de empregada e depósito...
até a quitinete,
ou "caixa de sapato".

Os prédios, como muita coisa
pensada pelos homens...
servem para diferenciar
uns dos outros.

Existe a frente e existe o fundo.
Andares altos e baixos.
Os privilegiados são identificados
pela letra A, às vezes B.
Quanto mais à frente no alfabeto,
pior o apartamento.

Vista e claridade são promessas
que poucas vezes se concretizam.
O que esperar de uma cidade
que dá as costas ao seu rio?

É certeza que as separações
e os divórcios...
a violência familiar,
o excesso de canais a cabo...
a falta de comunicação,
a falta de desejo...
a apatia, a depressão,
os suicídios...
as neuroses,
os ataques de pânico...
a obesidade, a tensão muscular...
a insegurança, a hipocondria...
o estresse e o sedentarismo...
são culpa dos arquitetos
e incorporadores.