7 coisas que aprendi com Orange is the new black

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Eu não ligava para Orange is the new black até eu assistir. Não tinha tempo, mas não importa, para Orange is the new black binge-watching é natural!


Seguem abaixo sete críticas ao sistema carcerário em geral, baseado majoritariamente na experiência com Orange is the new black à luz do meu diploma em Direito, haha:

  • Falta de humanidade - do momento que você é "encarcerado", é como se a sociedade retirasse a sua qualidade de "ser humano", com histórias por trás dos erros e vícios; o sistema prisional apenas representa uma amostragem de pessoas que cometeram atos tipificados como crimes pela atual conjuntura jurídica (e talvez política também).



  • Julgamentos - existe uma série de preconceitos por julgamentos externos e até mesmo internos do que é "ser preso". Orange is the new black explora bastante bem esse aspecto, em especial sob a ótica da atriz principal que se sente em uma "vida paralela" mediante as novas circunstâncias - que vão a transformando.



  • Processos e procedimentos arbitrários - quem detém a autoridade, ainda que mínima, possui um poder enorme sob àqueles que não possuem autonomia alguma. Do momento que a dignidade do detento é desconsiderada, abusos facilmente podem ocorrer face à posição de vulnerabilidade. Ressalto a diferença entre processos e procedimentos, porque algumas condutas são reflexo desde o trâmite judicial, dosimetria da pena e as políticas do sistema carcerário.



  • Coordenação truncada - isso significa dizer que até a "boa intenção" por parte de quem trabalha no sistema carcerário pode ser limitada, deixando-os de mãos atadas; a burocracia, as questões orçamentárias, o superfaturamento de materiais, entre vários outros fatores, contribuem para a desmotivação e a falta de diretrizes bem coordenadas e organizadas para o bem-estar dos detentos.



  • Estrutura para "bois" - partindo do pressuposto (i), detento não seria gente - portanto, o encarceramento é concebido em "jaulas". Não preciso nem comentar sobre a improcedência - e a necessidade de mudança - dessa concepção. E não estou falando apenas no sentido estrutural, como agora se faz na implementação de um sistema capitalista de Parcerias Público-Privadas.



  • Falta de diálogo e apoio - detentos são pessoas que precisam de tanto suporte psicológico e contato humano como qualquer outro "não selecionado" pelo sistema. "Loucura não se cura?" - com base nessa mentalidade, adota-se um modelo de isolamento do detento com uma vida saudável que qualquer um precisa e tem direito. Ou o detento perde o direito de ter direitos?



  • Falta de reestruturação - os detentos precisam se adaptar a um novo "habitat", essa é a premissa de Orange is the new black. Em determinado episódio, explora-se o medo de uma detenta prestes a ser liberada; da pressão do mundo externo, da solidão, das privações, porque a cadeia já se tornou algo mais natural do que a realidade de fora. Não há uma transição adequada entre esses dois universos paralelos.


  • É preciso reconceber o sistema prisional. No conceito original, prisão seria a punição de "ver a vida passando" - a cadeia, no meio da cidade, permitiria os cidadãos passarem na frente e lembrarem quão precioso é o tempo, enquanto os detentos - através de um vidro fumê - veriam tudo que estavam perdendo. A vida continua e a reintegração seria a consciência de interagir dignamente com as pessoas que estão lá fora. Estamos bem distantes dessa idealização.

    We live for live

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    Assisti o documentário do David Beckham passeando pelo Brasil. Quando ele passou por Manaus, e começou a conhecer vilas menores - com cerca de vinte famílias de subsistência na mata - acho que ele questionou (construtivamente, acredito, já que a mensagem do documentário é o contato com uma "simple life") o modo de vida por lá. Em um inglês não muito rebuscado, a resposta do guia foi meramente "we live for live", para dizer que a vida por lá é boa com o que eles podem ter, sem supermercados ou shoppings ao redor, literalmente vivendo para viver. Nesse sentido, Beckham refletiu sobre a pressão de uma realidade urbana agitada que ele sempre teve - e que na verdade ele teve que ir até tão longe para se dar conta disso e poder ter tempo para pensar nessas coisas, no que ele quer seguir para os próximos anos. Independente da dimensão (se você é um grande jogador de futebol aposentado ou não), a vida contemporânea limita nossas concepções (ou nos traz ilusões) do que é uma boa vida, que muitas vezes pode ser "meaningless". Das pessoas que vivem mais para ter do que para ser, das pessoas que vivem pelo trabalho (ou que o trabalho é a vida delas), das pessoas que vivem por outras... Quantos de nós somos livres para dizer que vivemos por viver, apreciando a importância da vida ao nosso redor? Isso é quase um luxo; ou, na visão capitalista de ser, uma miséria - renunciando a "vida contemporânea como ela é". Esse modelo nos diz que sempre precisamos de algo a mais (não apenas no âmbito consumista, mas principalmente no psicológico) para viver bem, e assim entramos em um ciclo sem fim. Apenas quando privados desse "algo a mais" é que vemos que a subsistência funciona - que o ser humano na verdade necessita de pouquíssimo para (sobre)viver e que as pequenas coisas tem seu valor. Proporcionalmente, podemos ser muito mais felizes com muito menos. Para 2015, não quero nenhum conforto a mais do que eu não precise - e que me faça falta quando eu não puder ter. Porque "sem querer", vamos ficando dependentes de coisas que não são essenciais mas parecem elementares no nosso dia a dia. E em determinados momentos, sempre vale nos questionarmos: o que é essencial na sua vida?

    Veja outras curiosidades - ou funny facts - sobre o documentário aqui.