Responsabilidade partilhada

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Não é um dia fácil para ser brasileira no exterior. Estrangeiros perplexos te abordam com "vi as notícias, e aí?". Afinal, de quem é a culpa do golpe branco?

A. PT e o fim de uma era
Um governo de "esquerda" que foi esquecendo o sentido dessa palavra com o tempo e as dificuldades do poder, fazendo concessões e abrindo mão do mínimo não-negociável;
só para ser apunhalado pela própria base "aliada", honrando a tradição irônica de toda tragédia política

B. "Golpistas"
Uma oposição que prefere "vingança" ao invés de construir um projeto alternativo consistente e legítimo;
mas tão apressada que provavelmente vai queimar a boca

C. Um sistema jurídico leniente
A abertura de um processo de afastamento com prerrogativa "jurídica" é só uma desculpa, todo mundo chegou a conclusão "pra quê Direito";
o que importa é a 'insatisfação' política e... psicológica, porque "nem no consultório do psicanalista a família leva tanto a culpa"

D. Eleitores e seus representantes
- 54 milhões de votos diretos foram substituídos indiretamente, na pior face da democracia representativa;
inventaram um recall e finalmente deram poder ao vice decorativo - o que isso significa "ninguém quer saber e tem raiva de quem sabe"
- A bancada majoritária reflete seu eleitorado tradicional e fundamentalista, "cidadãos/cidadãs de bem", oras.
cadê a aposentadoria desses políticos?
- Mas "Brasil, mostra a tua cara", pois é: vimos praticamente todos os deputados federais de uma vez só em pleno domingo à noite trabalhando; e é a primeira vez que muitos descobriram o que é a Câmara dos Deputados;
fica claro e evidente o cenário mais caricato da crise política brasileira - e uma curiosidade desta Casa: tem garçons para todo lado, você sabia disso?

[não está ali, mas poderia ter aparecido um garçom atrás de mim servindo água]

E. Todas as alternativas anteriores
Seja qual for a sua visão de "golpe", há de se convir que foi um grande passo atrás na nossa democracia. Uma democracia falha é responsabilidade de todos nós. Por cada atitude e por todas as palavras, inclusive as não ditas.

Se nem Rousseau acreditava assim na democracia - “there never has been nor ever will be a democracy in the true sense of the word”, quem dirá nós. O início do século XXI é marcado pelos desafios contemporâneos de (re)conceber o que é isso de democracia, seja em qual país ou continente analisarmos. Amadurecimento nem sempre se faz de acertos e espero que também possamos aprender (ou pelo menos nos tornar 0,0001% mais conscientes) com cada erro. Não está fácil para ninguém.